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Agora, porta aberta

Por Nathan Lopes

Ontem, novamente, uma porta de trem praticamente deixou parte da cidade sem locomoção. Em maio, o problema foi uma ferramenta que impedia que a porta fosse aberta ao chegar na estação da CPTM, como está no texto “Porta fechada”. Agora, uma blusa – pelo menos, é o que se diz até o momento – fez o contrário da situação anterior: não deixou que a porta fosse fechada. Mas, dessa vez, as consequências foram bem maiores.

Enquanto a porta fechada causou a revolta apenas das pessoas que não conseguiram embarcar na estação, a porta aberta parou a linha vermelha do metrô de São Paulo no horário de pico da manhã. Ou seja, no período em que há maior quantidade de pessoas usando o transporte público, resultando em vagões lotados.

Nos relatos divulgados pela imprensa, os passageiros ficaram cerca de meia hora dentro das composições esperando que elas voltassem a andar. Alguns não aguentaram mais aguardar e saíram dos vagões, mesmo que para isso precisassem quebrar portas e vidros. Essa cena aconteceu principalmente nos novos trens do metrô, cujas janelas são vedadas por causa do ar-condicionado. Aliás, sem a energia, que foi desligada, não havia ventilação, deixando os passageiros sufocados e ainda mais irritados.

É uma cena para se imaginar. Uma pessoa encostada na outra sem o mínimo de espaço para fazer um movimento qualquer. Ela se controla, torcendo por chegar ao destino o mais rápido possível para se ver livre dessa situação. De repente, o metrô para. Ela, já desconfortável, se esforça para aguentar uns dois, três minutos naquela posição sem que o trem se mova. Mas se passam dez, quinze, vinte, trinta minutos e nada acontece. O calor aumenta, a insatisfação cresce, a impaciência sobe e a raiva explode. Assim como a porta e a janela do metrô.

Quando não deixaram a porta abrir, no episódio da CPTM, os passageiros buscavam conforto. Agora, quando a abrem, é para sair de um desconforto, que eles suportam diariamente para chegarem aonde querem. Mas, no momento em que isto não acontece, a atitude a ser tomada não teria como ser diferente dessa.

Parece que os comandantes do transporte em São Paulo não perceberam que comodidade é a palavra-chave na opinião dos passageiros. Se ela se atinge aumentando o número de linhas de ônibus, metrô e trem, ou ampliando o rodízio de carros, ou construindo ciclovias é uma questão para discussão. O importante é trabalhar para que os passageiros não deixem de passar pelos locais e comecem a morar neles. Aí até o termo “passageiro” precisaria ser mudado.

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Conhecendo Santiago pelo transporte

Por Nathan Lopes

O sistema de ônibus e metrô reflete o cotidiano da cidade

O horário de funcionamento do transporte de uma cidade é uma forma de conhecê-la. O metrô de Santiago, durante a semana, funciona das 6 às 23 horas. E ao longo de todo esse tempo ele está lotado. Pela manhã e no começo da noite é uma missão quase impossível embarcar. Parece que a população inteira levanta ao mesmo tempo e vai para casa descansar na mesma hora.

Um dos trens do metrô de Santiago

Um dos trens do metrô de Santiago

Santiago não é uma cidade de vida noturna. Mas nem por isso deixa de tê-la. Ela acontece no bairro Bellavista e na Avenida Manuel Montt. São bares, pubs, pizzarias, karaokês e discotecas. Encontrar pessoas nas ruas durante a madrugada é possível apenas nessas regiões. E, ainda assim, somente nas proximidades dos carretes, as baladas deles. Anda-se um e outro quarteirão mais distantes e logo se está em uma região erma.

A sensação desértica aumenta em quantidade expressiva aos domingos. Nada está aberto na cidade. O metrô, para se ter uma ideia, só abre às 8 horas. Os chilenos são muito religiosos e respeitam o primeiro dia da semana como o do descanso. Achar um lugar para almoçar, jantar, sair para conversar passa a ser uma aventura. É preciso desbravar Santiago. O domingo ganhou um apelido entre os jovens: fomingo. Fome, para eles, é “chato”. 

Os trens do metrô de Santiago usam pneus

Os trens do metrô de Santiago usam pneus

E mesmo aos domingos o metrô está cheio. A rede metroviária cobre grande parte da cidade e os trens tornaram-se o principal meio de locomoção na cidade.

A questão é que o horário de pico durante a semana é muito maior. Às 20 horas ainda há dificuldade para embarcar. Para ajudar, os trens deles não são tão rápidos como os de São Paulo. A velocidade do metrô de Santiago equipara-se à da nossa CPTM, inclusive na qualidade e espaço das composições. Se aqui a recomendação é ir para o corredor, lá este praticamente não existe. Por outro lado, os vagões são interligados, o que facilita um mínimo que seja de dispersão. 

Do metrô também dá para ver a onipresente cordilheira

Do metrô também dá para ver a onipresente cordilheira

Se embaixo da terra a situação não é boa, por cima tudo parece mais tranquilo. Congestionamentos, se ocorrem, são consequência de algum acidente. Também não se vê nenhum ônibus fantasiado de lata de sardinha. Sobre estes, cabe um aviso. Os “bus” só aceitam BIP, uma espécie de Bilhete Único, mas que não tem a mesma função. Ele funciona como um cartão de crédito, tirando o dinheiro de dentro dos veículos e diminuindo os roubos. Os ônibus não têm cobrador nem catraca, apenas um aparelho em que se passa o BIP. 

O metrô de Santiago acaba servindo para as locomoções mais longas e distantes enquanto os outros veículos, para deslocamentos mais curtos. Com o transporte fluindo bem – apesar da lotação, no caso do metrô -, a capital chilena consegue ir para onde quer sem perder tempo no trânsito. E descansar bem aos fomingos, digo, domingos.

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Porta fechada

Por Nathan Lopes

Nem sempre é um problema mecânico que, por exemplo, faz as portas de um trem da CPTM não abrirem. O “SPTV 2ª edição” da última sexta-feira [veja aqui] mostrou o que estava acontecendo há duas semanas na estação Guaianazes. Quando a composição chegava na plataforma, quem estava dentro não conseguia sair por uma determinada porta; e quem estava fora, entrar. Dois jovens bloqueavam o mecanismo de abertura com uma ferramenta para evitar que o vagão ficasse lotado. Segundo reportagem de Carla Modena e Marcos Politi, a dupla só permitia a abertura das portas no Brás, cinco estações depois. Eles foram levados para a delegacia e poderão responder por crime contra o patrimônio público apenas se for comprovado pela perícia algum dano no trem.

A ferramenta que bloqueava a porta do vagão (Reprodução - TV Globo)

Se observarmos a atitude deles apenas do ponto de vista da ética e da moral dentro de uma sociedade, não resta dúvida de que ela está errada. Mas podemos tentar compreendê-la através do dia a dia deles, no qual vagões estão sempre lotados, a viagem até o destino demora. Enfim, tudo que contribui para ficarem estressados logo pela manhã, quando praticavam tal ação. Talvez por não suportarem ver essa cena diariamente, tenham decidido impedir a abertura das portas. E talvez por gostarem disso, os passageiros de dentro de vagão, que sabiam da razão do problema, não tenham falado nada por quinze dias. Com a ação da dupla, eles obtinham algo pelo qual ansiavam: conforto.

Nós podemos não travar portas, mas também temos o mesmo objetivo quando descemos na estação Ana Rosa ao invés da Paraíso, quando esperamos o ônibus das 20h30, mais vazio (ou menos cheio, depende de como se vê a questão) que o das 20h. De certa forma, contornamos o problema na medida do possível. O que os dois fizeram também foi um contorno, mas um prejudicial a outras pessoas.

Não defendo o que foi feito por eles. Defendo o objetivo que eles tinham. Ter transporte público mais confortável é um direito nosso. Se o trem da CPTM fosse mais rápido, se houvesse mais composições, eles não fariam isso. Não estariam atuando como sardinha dentro dos vagões e pensando, ao mesmo tempo, em uma solução, a qual foi bloquear as portas com uma ferramenta. Do contrário, poderiam viajar tranquilamente, ouvindo música, conversando, lendo um livro. Arrumando o transporte, a única preocupação será chegar ao destino. Nada sobre como melhorar, com as próprias mãos, o que acontece no trajeto até lá.

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