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O papel da América Latina na economia mundial

SP em notícia pelo mundo
Por Nathan Lopes

No dia 22 de novembro, o jornal “Financial Times” publicou uma série de reportagens sobre a influência latino-americana no atual cenário econômico do mundo. Em quase todas elas, São Paulo é citada, como se mostra nos trechos abaixo. Também há o desmantelamento de uma rede de tráfico de drogas que usava São Paulo como ponte para África e Europa. Para terminar, o show mais esperado do ano na cidade. A apresentação de Paul McCartney no Morumbi ganhou destaque até na Nicarágua.

“South American neighbours living worlds apart” (Vizinhos sulamericanos vivendo em mundos diferentes)
Financial Times (Inglaterra)22 de novembro de 2010

“Acostumar-se às variações culturais pode ser a diferença entre sucesso e fracasso quando se faz negócios na América Latina. Mas esse é um desafio que mais e mais companhias brasileiras estão aceitando. Depois de uma onda de investimento no Brasil a maré mudou de direção e as firmas do país estão expandindo-se pelo continente”. Essa é a tese de uma reportagem da série do “Financial Times” sobre a economia latino-americana e a importância do Brasil na região.

Cerca de um terço dos investimentos brasileiros vão para a Argentina e um quarto, para o Chile. De todo aporte financeiro, 30% está relacionado ao mercado de extração, sendo Petrobras, Vale e Gerdau as maiores responsáveis pelo número.

Mas a reportagem mostra que está havendo mudanças nessa situação. E um exemplo dela vem de uma empresa paulista, a Eurofarma, que fabrica genéricos. Ela disponibilizou mais de 50 milhões de dólares para a compra de companhias familiares na Argentina e no Uruguai ao longo dos últimos 18 meses, dando presença à empresa nesses países. “Nós percebemos que temos a chance de fazer boas compras”, disse ao jornal Wesley Pontes, diretor de importação e exportação da Eurofarma. “Tem um monte de médias companhias familiares com problemas na passagem das gerações e estão disponíveis para compra. Nossa estratégia é encontrá-las e nos aproximarmos delas”.

O “Financial Times” apresenta a visão dos executivos de empresas brasileiras e latinas de que não se procura tanto investimento de outras partes do mundo. Ele é realizado com capital latino na América Latina.

“Latin America: no longer a man with a moustache and a guitar” (América Latina: não mais um homem com um bigode e um violão)
Financial Times (Inglaterra)22 de novembro de 2010

A reportagem começa dizendo que não será surpresa se o avião em que você viaja for da Embraer, o frango que come, da JBS, ou a cerveja, da Anheuser-Busch Inbev. Todas elas são brasileiras (ou parte brasileira, no caso da última, que é uma parceria com uma cervejaria belga). Além dessas, apresentam-se empresas mexicanas e guatemaltecas. “Claramente, o crescimento de economias emergentes na ordem mundial não está apenas redesenhando questões geopolíticas; suas companhias estão mudando o padrão mundial de negócios”.

As mudanças, porém, não tiveram tanto efeito, como mostra a posição brasileira no “Doing Bussiness Report”. De 183 países, o Brasil está é o número 127, atrás de Nepal e Moçambique. “Mas isso poderá ser superado. Apenas observe a Marfrig. A companhia alimentícia que começou suas operações em 1986 como uma empresa familiar fora de São Paulo, tem agora uma capitalização no mercado de 3 bilhões de dólares e vendas anuais, no ano passado, de mais de 6 bilhões.

“Creativity is key if Latin American is to progress” (Criatividade é a chave se a América Latina quiser progredir)
Financial Times (Inglaterra)22 de novembro de 2010

“Os países latino-americanos bem-sucedidos deverão aprender a lidar com suas apreciadas moedas”, avisa o jornal em mais uma de suas reportagens especiais sobre a economia da região.

“Com os juros nas nações desenvolvidas provavelmente baixos por algum tempo, o dinheiro continuará a voar para as regiões com as economias mais promissoras. Isso as fará menos competitivas”. Sobre isso, o jornal diz que elas podem acumular reservas, impor o controle de capitais e impostos, manter bancos afastados do crédito e aumentar a eficiência da produção.

“A realidade é que morar em – ou exportar de – Bogotá, Lima, São Paulo e Santiago será mais caro em dólares americanos. Será mais difícil vender produtos nos EUA e em qualquer outro país que tenha a moeda atada à americana, como a China”. O sucesso nos negócios, então, estará em novos produtos, o problema latino-americano, que investe muito pouco em pesquisa e desenvolvimento.

“Desmantelan cartel que enviaba cocaína a Europa y África” (Desmantelam cartel que enviava cocaína à Europa e África)
La Prensa (Nicarágua)17 de novembro de 2010

Uma rede internacional de tráfico de drogas, integrada por brasileiros, bolivianos e cubanos, foi desmantelada pela polícia do Brasil. Segundo o “La Prensa”, a cocaína era enviada de São Paulo para África e Europa.

Ao longo dos dezoito meses de investigação, 43 pessoas foram presas. Além disso, foi pedida à Interpol a detenção de 7 europeus com participação na rede. Na operação, ocorreu a apreensão de um monomotor para o transporte de drogas a partir da Bolívia, 2,3 toneladas de cocaína, armas de alto calibre, granadas e 33 veículos.

Barcos, que transportavam soja e outros produtos brasileiros, eram uma das formas de levar-se a droga à África. De lá, caminhões e barcos menores eram usados para que ela chegasse à Europa.

“Paul McCartney sedujo em Sao Paulo a 64,000 fans, que vibraron con los éxitos de los Beatles” (Paul McCartney seduziu em São Paulo 64.000 fãs, que vibraram com os êxitos dos Beatles)
Hoy (República Dominicana)22 de novembro de 2010

O público que “abarrotou o estádio Morumbi de São Paulo e vibrou com as canções do ex-beatle” chamou a atenção do jornal. “No marco da turnê mundial de ‘Up and Coming’, McCartney alguns de seus temas pós-Beatles, como ‘RockShow’. Mas o estádio veio abaixo quando começaram a soar os acordes do clássico do quarteto britânico ‘All My Loving’”. O “Hoy” também falou do coro que os fãs fizeram em “Yesterday” e de que Paul McCartney não deixou de interagir com o público e “balbuciou em português um ‘obrigado, paulistas’”.

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A cor do céu de Santiago

Por Nathan Lopes

O branco da neve dos Andes ganha outro tom

O branco da neve dos Andes ganha outro tom

O maior problema de Santiago é visível. Basta olhar o céu e se notará uma mescla de azul com uma densa camada cinza. O ar da capital chilena nem disfarça a poluição que carrega para todos os lados.

A causa vem, como sempre, dos veículos. O combustível dos automóveis no Chile é exclusivamente a gasolina – ou diesel, no caso dos caminhões. Porém, é injustiça colocar a culpa toda neles. O frio também é responsável.

As casas de Santiago utilizam “estufa” para aquecer os ambientes. “Estufa”, em espanhol, é “aquecedor”. Para evitar problemas, a tradução do significado da palavra em português é “invernadero”. Esse aparelho funciona a gás. O objeto que se acha com mais facilidade em qualquer lugar é o botijão. Além de ser usado nos fogões, ele tem a missão de não deixar ninguém passar frio. Também existem os aquecedores elétricos, mas não são muito populares. O gasto com as “estufas” é mais econômico. E isso mesmo com uma conta alta vinda da Argentina, país do qual importa seu gás.

O cerro San Cristóbal e sua poluição companheira

O cerro San Cristóbal e sua poluição companheira

São Paulo também é uma cidade poluída, mas tem uma vantagem: não existe a cordilheira dos Andes em seu entorno. Não, ela é muito bonita de se observar, tentamos até imitá-la com a nossa serra da Cantareira. O problema é que a cordilheira não deixa o vento tirar a poluição do ar da cidade. Ela sempre para nos Andes. Com isso, a camada cinzenta fica cada vez maior.

A situação fica nítida quando se visita as duas colinas de Santiago: o cerro San Cristóbal e o cerro Santa Lucía. Este é um pouco mais baixo. Mesmo assim, a vista da cidade já fica um pouco embaçada. Não tive esse problema, pois quando fiz a visita havia chovido no dia anterior. Esse é o melhor momento para conhecer os cerros, já que a chuva limpa um pouco o ar da cidade. Já a imagem obtida do cerro San Cristóbal parece a mesma de uma pessoa que veste óculos sujos. E isso só na metade da subida. Quanto mais metros são percorridos, menos se enxerga a cidade. Ela parece coberta por um lençol cinza. A coitada da Virgem, que fica no cume da colina, nunca deve ter visto Santiago como ela é. 

De um dos pontos mais altos de Santiago, pouco se vê da cidade

De um dos pontos mais altos de Santiago, pouco se vê da cidade

O resultado da poluição são tosses, garganta irritada, espirros, nariz entupido. Enquanto ela persistir, recomenda-se que se visite, antes de viajar, um otorrinolaringologista. Ou, pelo menos, leve um soro fisiológico na mala. Vai dar para aproveitar tudo muito mais.

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Conhecendo Santiago pelo transporte

Por Nathan Lopes

O sistema de ônibus e metrô reflete o cotidiano da cidade

O horário de funcionamento do transporte de uma cidade é uma forma de conhecê-la. O metrô de Santiago, durante a semana, funciona das 6 às 23 horas. E ao longo de todo esse tempo ele está lotado. Pela manhã e no começo da noite é uma missão quase impossível embarcar. Parece que a população inteira levanta ao mesmo tempo e vai para casa descansar na mesma hora.

Um dos trens do metrô de Santiago

Um dos trens do metrô de Santiago

Santiago não é uma cidade de vida noturna. Mas nem por isso deixa de tê-la. Ela acontece no bairro Bellavista e na Avenida Manuel Montt. São bares, pubs, pizzarias, karaokês e discotecas. Encontrar pessoas nas ruas durante a madrugada é possível apenas nessas regiões. E, ainda assim, somente nas proximidades dos carretes, as baladas deles. Anda-se um e outro quarteirão mais distantes e logo se está em uma região erma.

A sensação desértica aumenta em quantidade expressiva aos domingos. Nada está aberto na cidade. O metrô, para se ter uma ideia, só abre às 8 horas. Os chilenos são muito religiosos e respeitam o primeiro dia da semana como o do descanso. Achar um lugar para almoçar, jantar, sair para conversar passa a ser uma aventura. É preciso desbravar Santiago. O domingo ganhou um apelido entre os jovens: fomingo. Fome, para eles, é “chato”. 

Os trens do metrô de Santiago usam pneus

Os trens do metrô de Santiago usam pneus

E mesmo aos domingos o metrô está cheio. A rede metroviária cobre grande parte da cidade e os trens tornaram-se o principal meio de locomoção na cidade.

A questão é que o horário de pico durante a semana é muito maior. Às 20 horas ainda há dificuldade para embarcar. Para ajudar, os trens deles não são tão rápidos como os de São Paulo. A velocidade do metrô de Santiago equipara-se à da nossa CPTM, inclusive na qualidade e espaço das composições. Se aqui a recomendação é ir para o corredor, lá este praticamente não existe. Por outro lado, os vagões são interligados, o que facilita um mínimo que seja de dispersão. 

Do metrô também dá para ver a onipresente cordilheira

Do metrô também dá para ver a onipresente cordilheira

Se embaixo da terra a situação não é boa, por cima tudo parece mais tranquilo. Congestionamentos, se ocorrem, são consequência de algum acidente. Também não se vê nenhum ônibus fantasiado de lata de sardinha. Sobre estes, cabe um aviso. Os “bus” só aceitam BIP, uma espécie de Bilhete Único, mas que não tem a mesma função. Ele funciona como um cartão de crédito, tirando o dinheiro de dentro dos veículos e diminuindo os roubos. Os ônibus não têm cobrador nem catraca, apenas um aparelho em que se passa o BIP. 

O metrô de Santiago acaba servindo para as locomoções mais longas e distantes enquanto os outros veículos, para deslocamentos mais curtos. Com o transporte fluindo bem – apesar da lotação, no caso do metrô -, a capital chilena consegue ir para onde quer sem perder tempo no trânsito. E descansar bem aos fomingos, digo, domingos.

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Cães na rua= calçada limpa?

Por Nathan Lopes

Na capital chilena, problemas no controle de animais abandonados não afetaram a limpeza da cidade

As calçadas de Santiago são como as de outra cidade qualquer. Por ela, pessoas caminham, pedintes trabalham, ambulantes vendem seus produtos e cachorros abandonados vagueiam. A única diferença aparece na quantidade destes em todo o município. É difícil encontrar um quarteirão em que não haja pelo menos um cão. A explicação vem da prefeitura. Há oito meses descobriu-se que o homólogo do nosso Centro de Zoonoses para eles enjaulava os animais sem dono e não os alimentava. Muitos morriam de fome enquanto outros se matavam em busca da sobrevivência. O contrato com a empresa responsável pelo serviço foi quebrado e desde então não há mais controle sobre eles.

Alguns dos "quiltros" de Santiago

Alguns dos "quiltros" de Santiago

Os cachorros que estão soltos pela capital do Chile não são como outros quaisquer. Normalmente, eles chegam a ter um metro de altura, possuem um grande porte. Os “quiltros”, como são denominados em espanhol, podem ser mansos, como também violentos. Nas praças, onde a concentração deles é maior, são comuns as brigas entre os cães. Também se relatam ataques a pessoas, os quais vão desde uma calça rasgada a uma mordida. Cidadãos pedem providência para o caso ou, ao menos, um maior controle dos animais. 

A convivência quase que diária fez com que outras pessoas passassem a tomar conta dos “quiltros”. Elas os alimentam e os levam ao veterinário. Os cuidados têm atraído cada vez mais cachorros para determinadas regiões, principalmente as centrais. São nelas que circulam os turistas, cuja atitude em relação ao assunto varia. Há os que acariciam os cães que dormem nas ruas e os que preferem atravessar a rua para evitar a proximidade.

Uma rua de Santiago

Uma rua de Santiago

Por causa da divisão de opiniões e trato com os animais, este é atualmente um dos assuntos mais polêmicos em Santiago. Porém, mesmo com essa quantidade de cachorros nas ruas, praticamente não existe sujeira deles nas ruas. Muito raramente se vê uma. As vias continuam limpas, situação bem diferente da que se encontra em São Paulo, onde existe o controle dos cães abandonados. O máximo que observa pelas ruas são folhas secas que caíram das árvores. Nada de papel, bituca de cigarro, entre tantas outras coisas. Há vários cestos de lixo nas calçadas, o que ajuda na manutenção da limpeza. Higiene é questão de saúde pública no Chile. E não são cachorros abandonados que vão mudar essa história.

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Atravessando de olhos fechados

Por Nathan Lopes

No trânsito de Santiago, a preferência é do pedestre

Olhar para a direita. Agora para a esquerda. Ih, lá vem um carro. Preciso esperar ele passar para atravessar. Ué, mas ele parou. Posso ir? Opa, obrigado.

Esta cena aconteceu comigo na primeira vez em que fui cruzar uma rua de Santiago, a capital chilena. O trânsito deles respeita o pedestre, o “Sr. Peaton”, como está escrito em muitas placas próximas dos semáforos. Trata-se de uma cidade pensada não apenas para se locomover de carro, ônibus ou metrô, mas a pé, quero dizer, “a pata”.

Foto: "Viaje na Viagem"

Foto: "Viaje na Viagem"

É estranho pensar em ter a preferência no trânsito quando se está acostumado a esperar todos os automóveis passarem para poder colocar as pernas em movimento. A cada esquina, aparece pintado no asfalto um triângulo, o símbolo que, na nossa legislação de trânsito, significa justamente “dê preferência”. Em São Paulo, este sinal tem efeito somente para os veículos; no Chile, é, prioritariamente, para as pessoas. Assim que o motorista vê o pedestre aproximar-se da área delimitada para a travessia, ele diminui a velocidade para que o cruzamento aconteça. Depois de uns dois, três dias, nem se precisa mais incomodar em verificar a vinda de um veículo. Pode-se atravessar tranquilamente, com toda a segurança e confiança que aqui não se imagina. Aliás, todas as ruas possuem faixa de pedestres.

Outra característica do trânsito de Santiago está na travessia das pessoas quando há um cruzamento de ruas. Quando a via na perpendicular do “Sr. Peaton” tem sinal verde para o trânsito, a luz vermelha está acesa para ele e os carros da rua em sua paralela. Agora, quando o movimento desta é liberado, o mesmo acontece para os pedestres. Ou seja, o carro tem permissão para entrar à direita ou à esquerda ao mesmo tempo em que o pedestre pode caminhar. Porém, o motorista só poderá fazer isso assim que todo “Sr. Peaton” já tiver atravessado. Em São Paulo, esse sistema funciona de forma mais egoísta. Primeiro, só os carros de uma rua podem seguir seu caminho. Depois, apenas os da outra rua. Aí, sim, o pedestre pode atravessar. Mas correndo porque tem somente alguns segundos para isso. Afinal, os motoristas já ficaram impacientes com a interrupção no trânsito de seus veículos para as pessoas passarem.

O respeito ao pedestre não acontece apenas nas ruas de bairro, de menor movimento. Ele se estende às grandes avenidas. Sem exceção. E o fluxo no trânsito dos automóveis não é prejudicado. Assim que termina a travessia das pessoas, todos os carros que aguardavam conseguem continuar seu trajeto. Não há perdas para ninguém.

Esse já é um costume de muito tempo em Santiago. Faz parte da cultura da cidade. Mesmo assim, os chilenos acreditam que o trânsito deles é caótico. Mas pensam assim pela quantidade de veículos nas ruas, que já quase não oferecem lugar para estacionar. Fora isso, não têm do que se queixar. O governo, inclusive, investe muito em estacionamentos subterrâneos. Se você quiser deixar seu carro embaixo do palácio La Moneda, fique à vontade. Outros já estão em construção em função da demanda. E eles não tiram das calçadas mais que o mínimo do espaço necessário. Afinal, as pessoas precisam continuar a andar.

Observe o caótico trânsito de Santiago em uma tarde de segunda

Observe o caótico trânsito de Santiago em uma tarde de segunda

O respeito é a marca do trânsito de Santiago, um município que deixa seus pedestres andarem em uma mesma velocidade durante todo seu caminho e não os fazem correr entre uma esquina e outra para que não sejam atropelados. E pode até atravessar de olhos fechados. Se quiser, é claro.

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