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Pelas pêras

Descansando de SP

Por Luma Pereira

Um anjo que se apaixona por uma mortal. Esse é o enredo do filme estadunidense e alemão Cidade dos Anjos, do diretor Brad Silberling.

O romance foi produzido em 1998 e conta a história de Seth, anjo interpretado por Nicolas Cage, que ama Maggie Rice – vivida por Meg Ryan – uma médica-cirurgiã dedicada à profissão.

Seth é um anjo da guarda encarregado de proteger as pessoas da Terra, além de levar os que morrem para o lugar aonde devem ir. Numa das primeiras cenas, Seth acompanha Susan (Sarah Dampf), e no caminho pergunta a ela “O que você mais gostava na vida?” Ao que a garotinha responde: “Pijamas”.

Maggie é uma profissional competente e tem a razão como principal aliada. Após perder um paciente sem motivo racional aparente, ela começa a se questionar sobre seus poderes como médica. Seth, então, se aproxima da protagonista e acaba se apaixonando por ela.

Cidade dos Anjos sugere algumas diferenças essenciais entre os humanos e os anjos. Seth não pode sentir sabores, nem cheiros, nem tem o sentido do tato. Ele passa o tempo todo imaginando como seria o prazer do toque ou o gosto das frutas.

Em outra cena memorável da película, o anjo da guarda pede que Maggie descreva para ele o gosto da pêra. Baseada no modo de descrever de Hemingway, a cirurgiã responde que a pêra é “Suculenta. Macia ao paladar, granulosa tipo areia doce dissolvendo na boca”.

No filme, os anjos vestem sobretudos pretos, e sempre observam tudo do alto. Através da escolha destas vestimentas, Silberling consegue transmitir ao público a imponência e o poder que os seres celestiais têm. O diretor os mostra como protetores.

Como Seth não tem sensações da mesma maneira que os humanos, e, por conseguinte, não pode sentir Maggie, ele cogita deixar de ser um anjo para poder viver esse amor. Almeja saber como é ter o vento batendo no rosto, o prazer do toque no corpo e o gosto da pêra descrita pela amada na boca.

Cidade dos Anjos é a versão hollywoodiana de Asas do Desejo, filme do diretor alemão Wim Wenders, produzido em 1987. Nesta versão original, o anjo se apaixona por uma trapezista. Além disso, as diferenças de comunicação entre seres celestiais e humanos são mais explicitadas.

Seth só queria saber qual era o gosto das pêras para ele mesmo, e não para Maggie nem para os autores dos livros. Queria sentir sabores que fossem apenas seus e de mais ninguém. Além disso, almejava amar a protagonista em todos os sentidos.

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Neve feita de tesoura

Descansando de SP

Por Luma Pereira

Edward Mãos de Tesoura (1990), do diretor Tim Burton, é um filme estadunidense do gênero fantasia/terror. Interpretado por Johnny Depp, Edward Scissorhands é um jovem que vive sozinho num castelo, próximo a uma vila, e que tem tesouras afiadas no lugar das mãos.

Ele é pálido, veste-se de preto e tem os cabelos bagunçados. É criação do inventor (Vincent Price), que deixa a obra inacabada. O “pai” de Edward morre no momento que ia dar mãos ao protagonista, o qual acaba ficando só na imensidão daquela mansão envelhecida.

 

Até que um dia, Peg Boggs (Dianne Wiest), vendedora de cosméticos, encontra Edward no castelo e decide levá-lo para morar com ela na vila. Na vida em sociedade, o protagonista tem que lidar com o mundo estranho no qual logo se torna a novidade do momento.

A princípio, todos os moradores querem conhecê-lo e o adoram – ele se torna o centro das atenções. Os talentos de Edward conquistam a curiosidade e a simpatia daquelas pessoas – o protagonista sabe fazer belas esculturas na vegetação e cortar o cabelo dos habitantes.

Entretanto, logo aquele ambiente social, após aproveitar a novidade, exclui a criatura do seu convívio. Edward é incapaz de tocar outros seres humanos, uma vez que sempre que tenta acaba cortando a pessoa, fato que é visto com preconceito pelos moradores da vila.  

No decorrer do filme, ele se apaixona pela filha de Peg, Kim Boggs, interpretada por Winona Ryder. Mas a concretização do amor é impossível, já que Edward não pode tocar a jovem para não feri-la.

Numa das cenas da película, Edward está fazendo uma escultura de gelo no formato de anjo, e Kim fica deslumbrada com a beleza do trabalho. Então, ela se aproxima e começa a dançar com os braços para o ar, em meio aos fragmentos de gelo que vinham da obra do protagonista – os quais pareciam neve. Neve feita pelas tesouras de Edward.

Edward Mão de Tesoura é baseado em clássicos como Frankenstein, A Bela e a Fera, Pinóquio e O Patinho Feio. O filme foi indicado ao Oscar de 1991 na categoria de Melhor Maquiagem.

Com tantos impedimentos, o protagonista tem que decidir se permanece naquele mundo hostil ou se retorna para o castelo. Mas a verdade é que, mesmo com mãos de tesoura, Edward foi capaz de amar Kim e tocá-la de uma maneira que nem mesmo suas mãos, se as tivesse, poderiam fazer.

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Olhar para o pintor

Descansando de SP
Por Luma Pereira

“Você olhou dentro de mim” é a fala da jovem camponesa Griet (Scarlett Johansson), ao ver-se na pintura do artista holandês do século XVII Johannes Vermeer (Colin Firth), no filme Moça com brinco de pérola.

O drama foi produzido em 2003 pelo Reino Unido e Luxemburgo, e dirigido por Peter Webber. Conta a história ficcional de como Vermeer teria produzido o famoso quadro homônimo, uma de suas obras mais conhecidas.

Para ajudar a família a pagar as contas, Griet vai trabalhar na casa do pintor como criada. A jovem e o artista, então, acabam se aproximando e logo ela se torna uma inspiração para ele, que decide retratar sua beleza inusitada – o quadro é uma encomenda de um mecenas da época.

Em muitas cenas, Vermeer apenas observa Griet, contemplando os traços delicados e belos da jovem camponesa. Busca a melhor maneira de reproduzi-la na tela – fazê-la parecer real na arte dos pincéis.

 

Nesses encontros, fica evidente o amor platônico que há entre a moça e o pintor. Nos olhares de ambos existe uma conexão profunda – enxergam-se além dos próprios rostos. O silêncio predomina entre eles, mostrando que as palavras se tornam desnecessárias. 

Entretanto, Vermeer, após muito observá-la, percebe que falta algo à pintura que realizará: os brincos de pérola. Então, é necessário que Griet fure as orelhas para que aquelas jóias emprestadas caibam naquela beleza e façam parte do rosto e da pintura. A pérola é a presença mais visível da obra de Vermeer.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Tracy Chevalier. Como nunca se soube muito sobre a biografia de Johannes Vermeer, a autora decidiu escrever uma história ficional sobre como poderia ter sido produzida a pintura Moça com brinco de pérola.

Tanto o filme quanto o livro lançam o olhar da moça para o artista holandês e para toda a vida que jamais foi documentada – um olhar para o pintor. O drama foi indicado para o Oscar de 2004 nas categorias de Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Figurino.

Realidade ou ficção, a verdade é que o olhar do retrato é direcionado para o pintor, para nós e para além de tudo isso. E a pérola fica ali ao lado da moça, brilhante na pintura, como única testemunha do que teria acontecido antes, durante e depois da produção da obra.

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Carpe Diem em segredo

Descansando de São Paulo
Por Luma Pereira

Dirigido por Peter Weir, Sociedade dos Poetas Mortos é um drama estadunidense de 1989. O filme se passa em 1959 e conta a história do professor de poesia John Keating (Robin Williams) e dos alunos da conservadora Academia Welton, escola preparatória para rapazes.

Enquanto a instituição de ensino preza pela disciplina dos alunos e pela manutenção das tradições seculares, Keating almeja ensinar aos jovens a pensarem sozinhos sobre filosofia e questões da própria existência.

Por utilizar esse método de ensino diferente do convencional, o professor acaba entrando em conflito com a tradicional Welton, o que ocasiona para ele alguns problemas.

 O protagonista incentiva os alunos a fazem de suas vidas algo extraordinário – a vivê-la intensamente. A expressão latina Carpe Diem (significado: “aproveite o momento”), do poeta romano Horácio, passa ser o tema da vida dos jovens de Welton.

O objetivo deles é pensar no que importa verdadeiramente no instante do agora. Querem perceber quais são suas verdadeiras vontades e intuitos na vida, além de descobrir qual é a vocação e talento que têm. Com Keating, eles percebem que cada momento tem a sua maneira de ser importante e único.

No decorrer das aulas, o professor conta aos alunos sobre a existência de uma sociedade dos poetas mortos, fundada há tempos por um grupo de estudantes da mesma escola. Eles se reuniam para ler poesia e estudar autores renomados da literatura.

Alguns jovens decidem, então, reavivar essa sociedade, colocando em prática os costumes dela. Encontram um lugar secreto onde lêem poesia, discutem filosofia e conversam sobre a existência.

Os participantes mais entusiasmados do grupo são Neil Perry (Robert Sean Leonard) e Todd Anderson (Ethan Hawke). Numa das cenas da película, Todd, estimulado por Keating, compõe um poema em tempo real, na frente da classe toda. Esses são alguns dos versos:

“A verdade é como um cobertor que sempre deixa os pés frios.

Puxa-se, estica-se, mas nunca é suficiente. Nunca nos cobre por inteiro.

E, desde que nascemos, chorando, até que partimos, morrendo,

Apenas cobrirá o rosto quando se geme, chora e grita!”

Sociedade dos Poetas Mortos nos mostra que é importante estudar e ter uma profissão. Mas não podemos deixar de lado as realizações pessoais, os sentimentos e a poesia. Keating ensinou os jovens de Welton a viver a vida de verso em verso.

O filme ganhou o Oscar de 1999 na categoria de melhor roteiro original. Além disso, recebeu a indicação de melhor filme, melhor diretor e melhor ator (Robin Williams).

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O enquanto da espera

Descansando de SP
Por Luma Pereira

Dirigido por Steven Spielberg, O Terminal é um filme estadunidense de 2004. Viktor Navorski, interpretado por Tom Hanks, viaja do país onde mora, a fictícia Krakozhia (no leste europeu), para os Estados Unidos. Porém, a terra natal do protagonista sofre um golpe de estado, o que invalida o seu passaporte, impedindo-o de desembarcar em Nova York.

O chefe de segurança do aeroporto, Frank Dixon (Stanley Tucci), exige que o protagonista aguarde na sala de trânsito internacional até que a guerra da Krakozhia termine. Sem poder voltar para o país de origem, nem pisar em solo norte-americano, Viktor é obrigado a viver trancado no Aeroporto Internacional John F. Kennedy (JFK) durante nove meses.

O protagonista continua sua vida ali mesmo no aeroporto. O cenário é cheio de pessoas esperando vôos, aviões atrasados, seguranças – todo um cotidiano que continuava independente da presença de Viktor. Ele, por sua vez, procura se integrar àquele ambiente, fazendo amizade com os funcionários do local, e criando para si mesmo uma rotina própria dentro daquele novo espaço no qual se encontrava. Viktor chega até mesmo a se apaixonar por uma comissária de bordo chamada Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones).

Viktor se aproxima do zelador Gupta (Kumar Pallana), que se diverte vendo as pessoas escorregarem no piso molhado, após ignorarem a sinalização que ele sempre cuidadosamente coloca após lavar o piso. Também conversa com o carregador Mulroy (Chi McBride), que realiza partidas de baralho cujo prêmio são as bagagens esquecidas por passageiros.

Além disso, conhece Enrique (Diego Luna), funcionário da praça de alimentação, que fornece gratuitamente refeições a Viktor, em troca de ajuda para conquistar Dolores (Zoe Saldana), funcionária da imigração. O protagonista acaba conseguindo formar uma verdadeira família dentro do aeroporto, mesmo na situação em que se encontra.

Ele se identifica com Amelia (Zeta-Jones), pois ambos estão sempre à espera de que algo aconteça. Ela faz de tudo para organizar os horários de trabalho de modo que possa encontrar com o amante, de quem aguarda um chamado pelo bipe. Ele espera que um telefonema resolva a burocracia ignorante que tem que enfrentar ao permanecer detido no aeroporto.

O Terminal fala essencialmente sobre a espera. Em forma de comédia, nos remete à espera humana, algumas vezes vazia, outras com algum propósito. No final do filme, vemos que o motivo que faz Viktor aguardar nove meses é nobre. E enquanto aguardava, fez mais do que apenas esperar – preencheu de vida o enquanto da espera. Ele certamente acreditava na máxima “a esperança é a última que morre”.

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