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O novo no que é novo

O carioca Felipe Absalão ganha fama no stand-up, o gênero humorístico que mais tem conquistado nos últimos anos  

Por Nathan Lopes 

Um dos jovens humoristas do país, Felipe Absalão tem se destacado no stand-up. Foi este gênero humorístico que o levou à televisão. Ele ficou conhecido do grande público ao aparecer no quadro “Pistolão”, do “Domingão do Faustão”, no qual um famoso apresentava uma atração de que havia gostado para o Brasil inteiro. Sua pistoleira era a atriz Márcia Cabrita. Por causa dela, a imitação de Antônio Fagundes deixou de ser vista por centenas para chegar a milhões. Esta virou sua marca, assim como as de Selton Mello e Alexandre Frota. 

Mas ele tem mais a mostrar. São suas observações do cotidiano, típicas da comédia que precisa apenas de um microfone e, claro, um humorista. “Celular de novela: aquilo lá pega até no oceano”, foi uma de suas tiradas. Elas lhe proporcionaram vários convites para apresentar-se em palcos de stand-up em São Paulo, como o “Comédia Ao Vivo”.   

Nesta entrevista ao EspelhoSP, Absalão faz uma análise do gênero stand-up, que, segundo ele, tem um grande motivo para ter dado certo no Brasil.  “Qualquer lugar que tenha um microfone e um foco de luz está apto a receber um show de stand-up. Se tornou um grande negócio”, comentou o humorista. Claro que esse cenário de nada serviria sem a criatividade dos comediantes. E a de Felipe Absalão o coloca como um dos novos nomes do gênero que só tem crescido no país. 

 

– O que o stand-up tem que os outros estilos humorísticos não tem? 

O estilo. No stand-up existem “regras” que devem ser respeitadas. Por exemplo: cada um escreve o seu texto, não pode usar piadas conhecidas, como as de português, de papagaio, não pode usar trilha sonora, cenário, personagem, iluminação especial… Nada! É apenas o ator, seu texto e um microfone. 

 

– Qual é a vantagem dele?
A vantagem é que, por não ter cenários, iluminação e outros recursos, se torna um show “fácil” de montar, pois não exige investimentos e nem depende de patrocínio. Qualquer lugar que tenha um microfone e um foco de luz está apto a receber um show de stand-up. As empresas também saem ganhando ao contratar este tipo de show porque ele não exige uma preparação inicial. Se tornou um grande negócio.
 

– O stand-up, então, pode ser considerado um gênero teatral?
Claro que sim. Embora seja um estilo mais coloquial – como um bate papo com a plateia -, existe um texto e uma interpretação dele. Além de estar em cartaz em teatros.
 

 

– Você e seus colegas têm conseguido lotar teatros, algo que atores consagrados há muito tempo não vinham. Há algum preconceito no meio artístico por causa disso?
Não, pelo contrário. Eles vêm assistir ao show, gostam e voltam. Muitos têm conversado comigo querendo experimentar o estilo. Eu dou a maior força. O Bemvindo Siqueira, por exemplo, tem se apresentado comigo e hoje é um grande amigo. Eu sempre tive um retorno muito carinhoso de todos que prestigiaram meu trabalho.
 

– Qual é a diferença de um show de stand-up em São Paulo e de um no Rio de Janeiro? É o tipo de piada, o tempo da piada? Ou o público pede basicamente a mesma coisa?
A diferença vem dos atores. Cada um impõe seu estilo e sua linha de textos. Como o stand-up fala sobre o cotidiano, provavelmente vamos ver muitas piadas regionais. Rio de Janeiro com as praias e São Paulo com o trânsito, por exemplo. O ideal é sempre o ator buscar adaptar seu texto quando vai se apresentar em outras cidades. O público é o mesmo em qualquer lugar, ele quer rir, o riso é universal. Se não rirem pode ter certeza de que a culpa é do ator e não da platéia. O público sempre busca um show de humor para rir.
 

– O stand-up é um gênero mais masculino do que feminino em relação aos humoristas? E em relação ao público?
Não. Como ele fala do cotidiano, mulheres são sempre bem vindas. O que presenciamos é uma quantidade muito pequena de mulheres experimentando o stand-up. Deveria ter muito mais. Por isso, o estilo é naturalmente masculinizado. Eu sempre gosto quando tem mulheres dividindo o palco comigo. Assim, se tem uma visão do universo delas.
 

– Em entrevista ao “EspelhoSP”, a atriz Fabiana Karla disse que não gosta muito de stand-up pela quantidade de palavrões que é dita. Essa é uma característica do estilo ou é o público que pede por isso?
Palavrão não é uma característica do stand-up, mas faz parte. Ela pode ter assistido a um show com um ator que falou muitos palavrões. Tem plateias que gostam e outras que não. O ideal é o ator ter um bom número de textos e, ao perceber a linha que o público está gostando mais, seguir por ela.
 

– Por que demorou para o gênero chegar aqui? Afinal, nos Estados Unidos, ele é consagrado há décadas.
A demora foi apenas por questões culturais. No Brasil, estávamos acostumados com um outro tipo de show. Foi a chegada do seriado Seinfeld que alavancou o gênero por aqui. Seinfeld foi um grande divisor de águas no stand-up brasileiro.
 

– Você tem visto alguma transformação no stand-up brasileiro nos últimos anos?
Não transformação porque está muito recente por aqui. O que vejo é um crescimento de público e de atores.
 

– Apresentar-se sem ter um personagem: isso é uma vantagem ou uma desvantagem?
Não vejo como desvantagem e sim como um desafio. Se não gostarem de um personagem, não gostaram do personagem. Se não gostarem de você, não gostaram de você. É mais desafiador entrar com a “cara limpa”.

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Cara limpa no palco

Com um microfone e, principalmente, uma boa piada, os shows de stand-up comedy levam ao teatro uma plateia desacostumada a frequentá-lo. Mas, apesar de usar o mesmo espaço das peças tradicionais, ele pode ser considerado um gênero teatral?

 Por José Roberto Gomes Jr., Nathan Lopes, Priscila Pires e Raphael Scire

Em uma de suas apresentações, o humorista Marco Luque faz uma pergunta: “Quem está vendo o show pela primeira vez?”. Mais da metade da plateia levanta a mão. Ele, então, emenda outro questionamento: “Quem está vindo ao teatro pela primeira vez?”. O número de acenos do público tem apenas uma pequena queda. A maioria deles é de gente jovem, na faixa dos 20 aos 30 anos. O humor tem, cada vez mais, levado pessoas que nunca pensaram em sentar-se numa poltrona para ver um espetáculo teatral. O responsável por isso chama-se stand-up comedy. Ou, na tradução para o português, “comédia em pé”.

Também chamado de “humor de cara limpa”, esse estilo cômico diferencia-se das tradicionais peças teatrais, já que estas necessitam de cenário, sonoplastia e maquinário, por exemplo, e o stand-up comedy, apenas de um microfone e uma iluminação, o que reduz, consideravelmente, o gasto frente a uma apresentação convencional. A semelhança entre ambos fica apenas no espaço que ocupam, o palco. E é justamente dessa observação que surge uma pergunta: o stand-up é um gênero teatral?

Para a humorista Fabiana Karla, conhecida do grande público por seus papéis cômicos na televisão (Zorra Total, da TV Globo), esse tipo de comédia é muito mais um estilo de entretenimento do que teatral. “Teatro envolve outras características, como figurino, ambientação e personagens. O stand-up tem um ‘ator de cara limpa’, contando piadas aos espectadores. A proposta é realmente diferente”, analisa Karla, que recentemente apresentou a peça Gorda em São Paulo.

Aliás, a capital paulista é referência nacional no quesito stand-up comedy. Trata-se da cidade com inúmeras apresentações de humoristas todos os dias da semana. Os mais famosos desses espaços estão localizados, principalmente, em regiões nobres, como os arredores da Avenida Paulista (Clube da Comédia e Comédia ao Vivo), Moema (Improriso) e Vila Madalena (Santa Comédia). Além disso, bares também são espaços recorrentes utilizados pelos humoristas nas apresentações, como o Pueblo Bar, na Vila Olímpia, em São Paulo. “A gente começa fazendo isso aqui em bares, com o pessoal bêbado, o dono do bar empurrando pro palco…”, revela o “humorista de cara limpa” Diogo Portugal, participante esporádico do Clube da Comédia, apresentado no Teatro Procópio Ferreira.

Preparando a piada

Boa parte dos atores de stand-up comedy possui curso de teatro nos currículos e, antes de iniciarem a apresentação, selecionam alguns temas a serem colocados para o público, os quais são observados no cotidiano. “São coisas normais contadas de uma forma engraçada”, relata a estudante de teatro de improviso e humorista Nathália Soriano, que continua: “Tem que sair do senso comum, daquela piadinha que provavelmente todo mundo já pensou”.

Os assuntos preferidos são as diferenças entre homens e mulheres e algum caso específico que esteja na mídia. Recentemente, em apresentação no Clube da Comédia no começo do ano, Danilo Gentili (também repórter do CQC, da TV Bandeirantes) perguntou à plateia o que ela sugeria como tema. Uma voz vinda da direção das poltronas, disse: “Fala sobre a Hebe!”, referindo-se à apresentadora de televisão que ganhou as páginas dos jornais ao receber o diagnóstico de câncer. Segundo os comediantes, estar bem informado é o segredo para manter as piadas sempre atuais e originais.

Mulheres a serviço do humor

O que tem chamado a atenção nesse estilo nos últimos anos é a presença feminina. Há algum tempo seria impossível imaginar um espetáculo como o que está em cartaz atualmente. Putz Grill reúne as quatro amigas-comediantes Andréa Barreto, Carol Zocolli, Micheli Machado e Wanessa Morgado, quem comenta: “O número de mulheres, se comparado ao de homens, é ainda muito pequeno, mas fico feliz em ver cada vez mais de nós se arriscando, porque é uma profissão que não depende do sexo”.

Para Nathália Soriano, ainda há um certo preconceito em relação ao stand-up feminino. “O Brasil é machista. É diferente quando o Gentili fala um palavrão de quando a Carol fala. Tem gente que não se sente confortável e diz: ‘Nossa! Uma mulher falando assim’. Elas tem que provar que são boas duas vezes mais”.

Em expansão

Sobre o futuro, Morgado acredita que o stand-up comedy, apesar de muito recente, em pouco tempo tende a “dar uma acalmada”. “Mas, com toda certeza, ele veio para ficar”. Isso alegra o público, que ri de fatos corriqueiros do seu dia a dia, e os próprios humoristas, os quais têm faturado muito em suas apresentações. O ingresso do Clube da Comédia, por exemplo, custa quarenta reais. Esse, aliás, é motivo de lamento para a comediante Fabiana Karla, que não perde a oportunidade de fazer graça. “Sou péssima em contar piada e perco muito dinheiro com isso. Se soubesse fazer stand-up, eu estaria feita”.

Por ora, humoristas comemoram o aumento no número de jovens que ingressam na área e auxiliam na expansão das apresentações. O que atraiu a atenção de Nathália Soriano, por exemplo, foi justamente a “cara limpa”. “São eles mesmos, sem figurino, cenário, essas coisas”, comenta. Porém, ela discorda de Fabiana sobre a questão do gênero. Nathália pensa que a comédia em pé não deixa de ser uma forma de teatro. “Não é qualquer um que chega lá no palco e começa a contar piadinhas. Os humoristas se preparam e muitos deles ou já eram atores mesmo ou estudaram teatro depois”.

Apesar do intuito de cada um ser diferente, foi a comédia em pé que apresentou o ambiente de teatro para muitos. Fabiana tem uma explicação para isso. “Esses espetáculos, muitas vezes, entretém mais do que peças que estão em cartaz”.

Foi o que aconteceu com a estudante de relações públicas Graziela Ferrari, após assistir à apresentação de stand-up comedy ao vivo pela primeira vez: “Já havia assistido a alguns vídeos no YouTube, do Terça Insana, e achei muito engraçado. Resolvi conferir no teatro.” Com Laura Hauser, estudante de jornalismo, não é diferente. “Acho que stand-up comedy é mais que simplesmente humor. É uma forma excelente de crítica. Por ser algo muito divertido, consegue passar informação de uma maneira leve e atingir um público muito grande”. Ela lembra ainda de um grande nome desse gênero no exterior: George Carlin, considerado um dos reis da comédia stand-up. “Seus números eram sempre muito críticos. E o legal é que ele conseguia abranger temas muito diferentes: desde religião até meio ambiente”, comenta.

Se o stand-up é ou não teatro nem quem faz ou o estuda consegue responder. O melhor em meio a essa “confusão” para nós, do público, é acomodar-se na poltrona e gargalhar.

Os palcos de stand-up comedy 

Clube da Comédia

Local: Teatro Procópio Ferreira (Av. Augusta, 2823 – Jardins – S.Paulo/SP)

Quando: Quartas, às 21h

Humoristas: Danilo Gentili, Marcelo Mansfield, Marcela Leal, Oscar Filho e Rafinha Bastos

Santa Comédia

Local: Bar Bleeker St., Rua Inácio Pereira da Rocha, 367 – Pinheiros – São Paulo

Quando: Domingos, às 21 horas

Humoristas: Carol Zoccoli, Fábio Lins, Victor Hugo, Marco Zenni, Felipe Andreoli e Fernando Muylaert

Improriso

Local: Café Paon, Av. Pavão, 950 – Moema – São Paulo

Quando: Quintas, às 22h

Humoristas: Bruno Motta, Nany People, Márcio Ribeiro, Danilo Gentili, Maurício Meirelles, Murilo Gun, Marcos Castro, Ben Ludmer, Renato Tortorelli, Carol Zoccoli, Fernando Caruso, Diogo Portugal e outros

Seleção de humor

Local: Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis, Avenida Higienópolis, 646 – Higienópolis – São Paulo

Quando: Sextas e sábados, 00h.

Humoristas: Bruno Motta, Márcio Ribeiro, Marcela Leal, Maurício Meirelles e Ben Ludmer

Comédia ao vivo

Local: Teatro Renaissance, Al. Santos, 2253 – Jardins – São Paulo

Quando: Sextas, às 23h59

Humoristas: Marcelo Adnet, Daniela Calabresa, Luís França e Fábio Rabin

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