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A Broadway é aqui em São Paulo

Por Nathália Soriano

Foram inúmeras produções, desde as mais grandiosas e conhecidas até as mais simples. Se é que algo pode ser chamado de simples quando o assunto são os musicais.

Em 2010, a cidade de São Paulo recebeu muitas atrações desse tipo e chegou, até mesmo, a ter nove delas em cartaz ao mesmo tempo. Desde as megaproduções Cats e Mamma Mia!, passando pela polêmica O Despertar da Primavera, e pelo infantil O Soldadinho e a Bailarina, até produções menos conhecidas como Emoções Baratas; pode-se, até incluir nessa lista, peças que são consideradas o “mico do ano”, como foi Zorro, o musical.

Mas deixando de lado qualidade – e, também nesse caso, quantidade –  os musicais vieram pra ficar. E São Paulo é prova disso. Eles chegaram com força aqui no começo da década, mais precisamente em 2001 com Les Misérables. Também já passaram por aqui O Fantasma da Ópera, Chicago e A Bela e a Fera.

Não se pode falar em musical sem mencionar seus atores/cantores. Totia Meireles se consagrou em Gypsy; além dela outros começam a demarcar seu espaço no gênero: Kiara Sasso, Saulo Vasconcelos e Nando Prado já participaram de várias e grandes produções, como O Fantasma da Ópera, Jekyll & Hyde e A Bela e a Fera.

O público vem aumentando e o ano de 2010 pode ser considerado um dos melhores – se não o melhor – para esse gênero teatral. Aliás A Gaiola das Loucas e Mamma Mia! fecharam o ano inda em cartaz; e 2011 promete, pois, além dessas peças que voltam no início do ano, já estão certas Evita, As Bruxas de Eastwick e New York, New York.

Definitivamente o mercado de teatro musical vem se expandindo; há público e gente disposta a fazer São Paulo uma filial da Broadway no Brasil.

Alguns musicais que ficaram em cartaz em 2010

Cats
Mamma Mia
A Gaiola das Loucas
Jekyll & Hyde — O Médico e o Monstro
Avenida Q
O Rei e eu
Hairspray
Gypsy
O Despertar da Primavera
Aladdin
“Bixiga – Um Musical na Contramão”
Into The Woods (Era uma vez)
“Zorro, o musical”
Besouro Cordão de Ouro
Ado(ni)rando
Lamartine Babo
Os Boêmios de Adoniran
É com esse que eu vou
Pororoca
Soldadinho e a Bailarina.
Emoções Baratas


Fonte: http://www.musicaisbr.com/

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Maria Fernanda Cândido está no teatro em 2011

Perfil paulista
Por Raphael Scire

O início da Casa do Saber – instituição que realiza cursos e palestras sobre variados temas, como filosofia, história e atualidades – deu-se a partir de reuniões que um grupo de amigos fazia em 2003. Entre os presentes nesses encontros, estava a atriz Maria Fernanda Cândido, uma das atuais sócias. Para ela – curitibana, mas paulistana desde os 12 anos -, a inauguração do espaço de cultura, hoje com unidades em São Paulo e no Rio, foi uma iniciativa pioneira.

“Era uma experiência muito gostosa, mas, para tocar o negócio, fomos muito corajosos, pois não existia nenhuma referência.” Maria Fernanda recorda-se da dificuldade de explicar para as pessoas do que se tratava exatamente o novo espaço, o que era necessário, inclusive, na hora de trazer os professores para ministrarem as aulas. “Hoje, consolidamos um sistema de trabalho e uma imagem.”

Diz que sua função é trazer ideias para que a grade de cursos esteja sempre atual e renovada. Cada um dos sócios atua em uma área diferente, o que faz com que a programação seja a mais variada possível. A atriz revela que sua contribuição tende a ser mais na área artística. “A ideia de ter um anfiteatro foi minha, assim como a de fazer leituras teatrais.”

Terapeuta ocupacional formada, Maria Fernanda acredita que sua bagagem acadêmica contribui para sua vida profissional. “O terapeuta tem uma visão do todo: ser humano, vida, saúde.” Conta que é bastante ávida e interessada pelos cursos oferecidos na Casa do Saber, mas confessa que ultimamente não tem tido tempo para assistir a todos que gostaria. “Nos últimos anos, não consegui fazer nem um décimo do que gostaria, por conta do nascimento do meu último filho.”

Ler é uma de suas atividades favoritas, tanto que é frequentadora assídua de livrarias. E a poesia é uma das suas paixões. O primeiro autor que chamou a sua atenção foi o português Fernando Pessoa, depois o rol de escritores de sua preferência só foi aumentando. Hoje, cita também Edgar Allan Poe e João Cabral de Melo Neto.

Carreira artística. A atriz prepara-se para voltar aos palcos em 2011, com a peça O Demônio de Hannah, da qual comprou os direitos. Desde então, vem trabalhando na pré-produção do espetáculo. A ideia de montar a peça surgiu de um dos seus sócios na Casa do Saber, que assistiu à montagem e ligou para ela contando, entusiasmado.

Maria Fernanda encantou-se com a história da filósofa alemã Hannah Arendt, que teve um relacionamento com o também filósofo Martin Heidegger. “Muito mais do que a história de amor, há um embate ideológico, político e afetivo.” Refere-se à posição política assumida pelos dois personagens durante a Segunda Guerra Mundial: ele, filiado ao partido nazista; ela, judia que deixou a Alemanha para escapar das atrocidades de Hitler.

Paras as novela, porém, garante que ainda não é hora de retornar, por causa dos filhos pequenos. “É preciso uma disponibilidade de cerca de um ano.” Por isso, nos últimos anos, participou de projetos menores, como as minisséries Capitu, na qual atuou grávida, e Dalva e Herivelto, ambas na TV Globo.

Mãe de dois meninos, de 4 e 2 anos, Maria Fernanda concilia o trabalho artístico, a sociedade na Casa do Saber, os cuidados com a família e, de vez em quando, arruma tempo para ajudar no bistrô do marido, o chef Petrit Spahija – embora diga que só seleciona músicas e os artistas que expõem no restaurante. No dia a dia, define-se como uma pessoa marcada pela simplicidade. “Gosto de sossego, sou muito caseira. Minha família e meus filhos me fazem muito felizes.”

[Nota: este texto foi publicado originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”]

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A sorte de Simone Gutierrez estava na capital

Perfil paulista
Por Raphael Scire

Simone Gutierrez é uma artista completa: além de atuar, canta e dança. Bailarina clássica de formação, essa paulista de Ribeirão Preto sempre se entregou de corpo e alma a tudo o que se propôs fazer. Nos anos 2000, saiu da casa dos pais e veio tentar a sorte na capital. No começo, trabalhava na parte de eventos de um restaurante, onde pôde colocar em prática seus dotes artísticos, já que os garçons também eram cantores.

Ter uma formação completa, acredita Simone, é essencial para o trabalho de atriz, algo bastante requisitado em musicais. “Há uma cultura de musical em crescimento aqui no Brasil.” Lamenta, no entanto, que não haja escolas de interpretação que foquem nessa formação ampla. Ela mesmo nunca chegou a estudar canto. “Quando comecei a cantar, foi porque eu precisava. Eu tive a sorte de ser uma pessoa afinada, minha voz não tinha técnica nenhuma.” Simone credita aos musicais que participou o processo de aprimoramento do canto.

O primeiro papel que teve foi em “Hairspray”, montagem do ator e diretor Miguel Falabella para a peça da Broadway. Ela começou com o pé direito, já como a protagonista Tracy, uma garota baixinha e gordinha que tinha o sonho de se tornar estrela de um programa de televisão. “Antes, fiz outros musicais, mas apenas como coro”, conta. A participação em outros espetáculos do gênero lhe deu bagagem e experiência. “Aproveitei para aprender toda a técnica dos musicais, que é bem específica. Você, além de atuar, canta e dança.”

Simone, como qualquer outra atriz, teve de passar por uma bateria de testes, que duraram duas semanas, e deixou para trás 2 mil candidatos. Antes mesmo de saber se seria aprovada, tomou a decisão de engordar 20 quilos, apenas para os testes. “Logo eu, que sempre batalhei para ser magrinha!”

Com o papel garantido, entrou de cabeça no universo da personagem. De todas as Tracies encenadas nas montagens pelo mundo, a dela foi a mais baixinha – Simone tem 1,50 metro de altura –, a mais gordinha e a que mais dançava. Logo, chamou a atenção do coreógrafo americano que cuidava dos passos encenados na peça, bem como do público. “As pessoas saíam do espetáculo e me perguntavam: ‘Como!? Você é gordinha e faz tudo isso!'”, recorda. “A Tracy foi o divisor de águas da minha carreira.”

Televisão. Aos 34 anos, ela encara seu primeiro papel de destaque na TV, a secretária sem falas Lurdinha, na novela “Passione”, de Silvio de Abreu. Antes disso, porém, Simone já tinha atuado na televisão em papéis menores e sem tanto destaque, na novela juvenil “Malhação” e no humorístico “Zorra Total”. Tudo em função de sua atuação em Hairspray. “Na minha vida, eu fui tendo as oportunidades e fui abraçando. Nessa profissão, a gente conta um pouco com a sorte.”

O convite para encenar a secretária Lurdinha na novela partiu do próprio autor, que a viu no teatro estrelando o musical. A personagem foi criada especialmente para ela. “Quando assisti a Hairspray, lamentei não ter um personagem para ela”, revela Silvio de Abreu. Mas com o desenvolvimento dos capítulos, conta, ele percebeu que poderia criar algo especialmente para Simone.

Inicialmente, sempre que a personagem fosse falar, seria interrompida por alguém. Mas a Lurdinha de Simone foi conquistando o público de tal forma que já ganhou as primeiras falas. Ela, então, revelou-se uma verdadeira matraca, justificando o porquê de os outros personagens com quem contracena sempre a impedirem de abrir a boca. Ironicamente, revela que falar foi o mais difícil: “São textos enormes, que eu tenho de falar rápido, sem erros.”

Além disso, a ficção começa a imitar a realidade: a personagem já passou a fazer testes para participar de um musical, no qual poderá dançar e cantar. “Tomara que ela fique famosa e vá para a Broadway”, torce Simone

Modesta, a atriz acredita que o sucesso de Lurdinha é também por conta da equipe técnica da novela e de seus parceiros em cena, como Francisco Cuoco e Irene Ravache. “Se eu não estivesse cercada de pessoas tão talentosas, tão generosas, acho que a personagem não faria tanto sucesso”, opina.

Por conta das gravações, viu a sua rotina ser completamente alterada e, hoje, praticamente vive na ponte aérea Rio-São Paulo. O assédio do público também aumentou. Ao final desta entrevista, num shopping de São Paulo, uma garota chegou até a mesa com um guardanapo na mão e pediu um autógrafo a ela.

Prontamente, a atriz atendeu ao pedido da fã, de quem ouviu: “Fala para ela ficar com o Mimi, tá?” A moça fazia referência ao personagem de Marcelo Médici na trama, com quem Lurdinha começa a ter um relacionamento amoroso. Mas será que é isso que Simone quer para a sua personagem? “Ah, eu quero!”, revela, com um largo sorriso no rosto.

Passado e futuro. Nem tudo foram flores na carreira de Simone. Assim que chegou a São Paulo, ela deu duro para conseguir se estabelecer. “O primeiro ano foi o mais difícil, até eu conseguir um emprego e me sustentar.” Ela relembra com bom humor momentos que deixariam qualquer um desesperado, como o fato de ter dormido em uma casinha de cachorro.

Simone alugava um quarto na casa de uma senhora, mas um dia esqueceu a chave da porta e, quando chegou, ficou fora da casa. Para completar, chovia. Sem querer incomodar a proprietária, ela olhou ao redor e não viu mais nada, a não ser a morada do cão. Foi ali mesmo que dormiu.

Paralelamente à novela, Simone dedica-se à Rádio Banda iPod, da qual é a vocalista. Trata-se de um trabalho acústico, em que são tocadas músicas conhecidas, todas com releitura da própria banda. “Vai de Lady Gaga a Djavan”, conta. Além dos números musicais, a banda ensaia uma mistura de teatro stand-up, e Simone planeja a estreia do show para daqui a dois meses, assim que Passione chegar ao fim.

[NOTA: Texto originalmente publicado por Raphael Scire no jornal “O Estado de S. Paulo”]

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A procura da boa alma

Por Nathália Soriano

As portas do teatro se abrem e o público começa a entrar. Em uma delas, Denise Fraga; na outra, Ary França. Eles entregam o programa da peça enquanto brincam e agradecem as pessoas por terem vindo.

Assim, o clima é montado. “O que vocês vão ver aqui hoje é uma comédia, ok?!”, avisa o ator Ary França continuando sua interação com o público.

O sinal toca. Os atores se dirigem ao palco. Sentam de costas para o público no que parece ser um camarim improvisado. Levantam-se segurando velas e as apagam após um grito em uníssono de “merda!”. Começa, então, A Alma Boa de Setsuan.

Escrita por Bertolt Brecht, a peça conta a história de quando Deus (Ary França) vai à cidade de Setsuan à procura de uma boa alma. Essa alma ele encontra na prostituta Chen Tê (Denise Fraga), após tê-lo hospedado em seu quarto. Antes de ir embora, Deus dá a Chen Tê mil moedas de ouro. Com isso, ela compra uma tabacaria e muda de vida. Porém, por nunca conseguir dizer não, Chen Tê logo perde o que tem e se endivida. É quando ela se disfarça de Chui Ta, seu primo que chegou a cidade para cuidar dos negócios, e que representa seu oposto.

A peça é dirigida por Marco Antônio Braz e já ganhou vários prêmios entre eles: o APCA de 2008 como melhor espetáculo e como melhor atriz para Denise Fraga. Prêmios estes mais do que merecidos.

Destaque para a atuação de Denise Fraga que mostra sua versatilidade ao interpretar Chen Tê e Chui Ta, na variação de voz, gestos e movimentos, para convencer, não o público, mas os outros personagens de que são duas pessoas diferentes.

Outro destaque na atuação é para Ary França em sua interpretação de Deus que consegue tirar boas risadas da platéia, principalmente com sua interação com o Espírito Santo – representado como uma ave meio tosca que ele leva em seu ombro.

O cenário e o figurino usados são relativamente simples. Quanto ao cenário, são os próprios atores que o movimentam e o montam. Isso confere à peça certa leveza, como se as diversas partes que constituem o cenário estivessem dançando. O figurino é igual para todos os atores, o que varia, na verdade, são os adereços – usados para representar os personagens – simples como um leque, um chapéu ou mesmo uma túnica.

O elenco praticamente não sai de cena. Usa o fundo do palco como camarim para se preparar para a próxima entrada. Contudo, os atores parecem estar confortáveis e muito entrosados, brincando entre eles – como quando um personagem puxa a barba falsa do outro – e chegando a, até mesmo, interagir com a platéia em alguns momentos.

O final do espetáculo pode decepcionar a alguns. Pelo menos àqueles que esperam um fim convencional. A peça não oferece respostas prontas aos questionamentos levantados ao longo da apresentação. No entanto, é a atriz Denise Fraga que finaliza com um texto falado por ela mesma, que só traz mais questões e leva o público, que a pouco ria da situação proposta, a pensar e refletir sobre qual seria o final para Chen Tê; ou melhor, para a contraditória natureza humana.

O espetáculo terá última e única apresentação no dia 22 de setembro às 21h no Teatro Sérgio Cardoso Sala Sérgio Cardoso (R. Rui Barbosa, 153 – Bela Vista | Telefone: 3288-0136). O ingresso é um pacote de fralda descartável, uma lata de leite em pó, um quilo de arroz ou um quilo de feijão.

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Sérgio Cardoso se dá musical de presente

Por Nathan Lopes

A região da Bela Vista é conhecida por ser o reduto, além de cantinas, dos teatros em São Paulo. Este ano, um dos principais comemora suas três décadas de funcionamento: o Teatro Sérgio Cardoso. Para a ocasião, seu palco recebe uma peça feita especialmente para ele e a região em que se localiza, “Bixiga – O Musical”.

A peça, escrita por Edu Salemi, Enéas Pereira e Ana Saggese, conta a história do bairro, também conhecido como Bexiga. Os personagens vão desde Adoniran Barbosa – aliás, a estátua do músico, interpretada por Eduardo Silva – até Francisco Capuano (vivido por Paulo Goulart Filho), dono de um dos restaurantes mais famosos e antigos da região, que ainda está em funcionamento, a Cantina Capuano, de 1907. Também estão no roteiro Dona Yayá (Wilma de Souza) e as tragédias de sua vida. Tudo isso, como o próprio título já mostra, apresentado através de canções, criadas por Nelson Ayres, Ruriá Duprat, Miguel Briamonte e Rodrigo Morte.

Reportagem do programa “Metrópolis” (TV Cultura) sobre a peça

“Bixiga – O Musical” tem direção de Mario Masseti, que coordenou o trabalho de 23 atores no espetáculo. A peça, como noventa minutos de duração, conta também com os músicos da Jazz Sinfônica, regida por João Mauricio Galindo. Em cartaz até 31 de outubro.

Reportagem do programa “Vitrine” (TV Cultura) sobre o musical

BIXIGA – O MUSICAL
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Sérgio Cardoso (856 lugares)
Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Sextas e sábados, 21 horas; domingos, 19 horas.
Ingresso: R$ 20,00
Telefone: (11) 3288 0136

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Um drama!: Jardins

Por Raphael Scire

Estreio hoje aqui no EspelhoSP a seção Um drama!, na qual eu uno o útil ao agradável, a fome à vontade de comer, e passo a escrever mini peças dramáticas para mostrar eventos, acontecimentos, enfim, trivialidades que acontecem todos os dias em São Paulo. Uma maneira que eu encontrei, junto com meus colegas de equipe, que sugeriram e deram o aval para a empreitada, de juntar jornalismo com dramaturgia, duas coisas pelas quais eu sou apaixonado. Espero que gostem. Boa leitura e divirtam-se!

***

Rua Haddock Lobo, nas imediações da Oscar Freire, uma moça passeia, cheia de sacolas de grife, depois de uma tarde de compras. Mariana Cerqueira de Andrade tem 23 anos e faz parte de uma das mais tradicionais famílias paulistanas, àquelas que damos o nome de quatrocentonas. A outra garota em questão é Karina de Lima Dias, amiga de Mariana nos tempos de escola.

Karina reconhece Mariana na rua e sai desesperada gritando o nome da conhecida:

Karina                   – Mari! Mari! Ô, Mari!

Mariana vira-se e, discretamente, abaixa os óculos escuros, numa atitude um pouco blasé.

Mariana               – Não acredito! Karina?

Karina                   – Eu mesma! Quanto tempo que não nos víamos!

As duas se cumprimentam com um beijo.

Mariana               – Pois é, andei sumida mesmo. Morei um tempo na Europa.

Karina                   – Ah é? E o que cê tava fazendo lá?

Mariana               – Terminando os estudos… e você, o que faz aqui?

Karina                   – Nossa, nem fala. Passei o dia inteiro correndo atrás de um monte de dondoca na Oscar Freire para umas entrevistas do meu mestrado, mas nenhuma parou. Você acredita que uma delas teve a pachorra de me falar que tava com pressa e quando eu virei de costas, ela tava lá, olhando uma vitrine, com a maior calma do mundo… ai! também andei feito uma camela atrás de uma outra lá que passeava com o cachorrinho. Gente, deu uma bolha enorme no meu pé.

Enquanto Karina falava, Mariana mexia no celular, sem prestar muita atenção.

Karina                   – Ô, Mari, tá prestando atenção no que eu estou dizendo?

Mariana               – Tô, Tô sim. Mas o seu trabalho é sobre o quê?

Karina                   – Sobre a história dos Jardins, além dos hábitos dos frequentadores da região.

Mariana               – Nossa, eu fiquei passada quando descobri o por quê do bairro dos Jardins ter esse nome…

Karina                   – Ué, não é por causa da arborização do bairro, do fato de ser parecido com um jardim?

Mariana               – Isso era o que eu achava também. Mas o meu avô me contou uma história completamente diferente.

Karina                   – E olha que o seu avô tem propriedade para te contar histórias assim, né?

Mariana               – Pois é, ele foi um dos primeiros moradores do bairro, conhece bem a região. Na verdade, o bairro foi mesmo projetado para ser um imenso jardim, mas até aí o que pouca gente sabe é que os Jardins se chamam Jardins porque, na verdade, são quatro os bairros que fazem parte daquele que a gente acha que é um só.

Karina                   – Ah é? E quais são?

Mariana               – Olha, a gente, por exemplo, está andando na Haddock Lobo, que fica no Jardim Paulistano. Além disso, tem ainda o Jardim América, ali perto do Ibirapuera, o Jardim Europa, entre a Rebouças e a Nove de Julho, e o Jardim Paulista, mais próximo da Paulista e da Brigadeiro Luis Antonio.

Karina                   – Menina, não sabia que você conhecia São Paulo tão bem! Quem te vê por aí, assim, toda patricinha delicada trabalhada nas grifes, não fala que você sabe tanta coisa da cidade.

Mariana               – E quem te via, toda bicho grilo, cabelo ensebado, não imaginaria nunca que você faria um trabalho na Oscar Freire, né? Mas tem mais: não sei se você reparou, mas as ruas dos bairros fazem alusão ao nome deles.

Karina                   – Como assim?

Mariana               – No Jardim América, por exemplo, você encontra a Rua Honduras, a Estados Unidos, a Venezuela…

Karina                   – Ah, por isso que tem a rua Hungria, rua Suécia… então lá é o Jardim Europa.

Mariana               – Isso mesmo. Se você for descendo a Paulista, vai perceber que as ruas ganharam nomes de cidades do interior e do litoral do estado.

Karina                   – Faz sentido. Alameda Santos, Alameda Lorena… mas peraí: e o Jardim Paulistano?

Mariana               – O Jardim Paulistano presta uma homenagem a pessoas que nasceram em São Paulo ou tiveram destaque por aqui. É o caso da Alameda Gabriel Monteiro da Silva, e até mesmo da Oscar Freire.

Karina                   – Eu sei que ele era baiano…

Mariana               – Sim, mas ele fez carreira aqui em São Paulo. Querida, não posso ficar muito tempo. Você almoça comigo?

Karina                   – Olha, eu até aceitaria, mas tô completamente sem grana. Só tenho uns trocados pra um cachorro quente na Augusta, e lá do outro lado, no Centrão…

Mariana               – Ih, deixa disso. Eu pago! Já que a gente tá nessa vibe de falar dos Jardins, bem que a gente podia comer num daqueles restaurantes maravilhosos do bairro, né?

Mariana               – Boa idéia. E que tal tomar um café na Alameda Franca, hein?

Karina                   – Ah, eu topo!

Mariana               – (Acenando com a mão) Táxi!

O táxi para, as duas entram e o carro segue.

Mariana              – Tava aqui reparando, e adorei essa sua blusinha. Tenho uma igual. Comprei na Oscar Freire…

Karina                   -É, nem tão igual assim…

Mariana               – Ué, por quê?

Karina                   – Essa daqui é da Zé Paulino.

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Na trilha do teatro

Por José Roberto Gomes Júnior, Nathan Lopes, Priscila Pires e Raphael Scire

Um exemplo de que quando se faz algo que se gosta, se faz bem é Beth Néspoli. Por 15 anos, ela escreveu sobre teatro para o “Caderno 2”. Beth, de 51 anos, deixou as páginas culturais do jornal “O Estado de São Paulo” no começo de maio para dedicar-se à carreira acadêmica. “Cansei, estava com vontade de fazer outra coisa”, disse a jornalista, nesta entrevista, sobre a mudança. A “outra coisa”, no caso, é seu mestrado na Universidade de São Paulo (USP). O tema não poderia ser outro: as artes cênicas. Ela quer acompanhar a criação de um espetáculo teatral e detectar o que se espera de quem assiste a ele.

Beth Néspoli deixou as redações para se dedicar à carreira acadêmica Foto: Reprodução

Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim nascida em 26 de setembro de 1958, mas que, um mês depois, já morava com a família em Niterói, no Rio de Janeiro, Beth nunca teve o Jornalismo como primeira opção. Tanto que, até completar o curso, passou por três faculdades diferentes, cada uma em um período distinto de sua vida. Apenas se interessou pela profissão quando viu a possibilidade de uni-la ao teatro, o qual conheceu mais a fundo quando frequentou as aulas da Casa de Arte de Laranjeiras, também chamada de CAL. “Aquela escola de teatro, naquele momento, era muito mais viva, muito mais pulsante do que a universidade. Quando eu cheguei lá, falei: ‘Caramba, aqui eu abro uma janela para o mundo’”, conta.

A vista que essa janela lhe proporciona é a do aprendizado. “Para o teatro, você precisa da química, precisa da física, mesmo a política… Acaba se abrindo para muitos conhecimentos”. Fontes para eles estão logo na sala de estar de seu apartamento, localizado em um dos endereços com maior atividade cultural de São Paulo, a Avenida Paulista. Em cinco estantes de quase dois metros de altura estão inúmeros livros. Nas seis prateleiras de cada uma delas, há desde a coleção completa de Dostoievsky até um mangá da “Turma da Mônica Jovem”. 

Com a convivência, os colegas de “Caderno2” passaram a ver Beth Néspoli não como uma repórter especializada no que acontece nos palcos, mas uma apaixonada pelo mundo das encenações. “Seus textos irradiam um profundo amor pelo teatro”, elogia Evaldo Mocarzel, o editor que a contratou em 1997 para o jornal – no qual se tornou uma das jornalistas e críticas teatrais de maior renome do Brasil. Seu amor por essa arte é tanto que, quando o assunto são peças, Beth não retém nenhum detalhe de episódios que vai contar. “Eu sou muito faladeira”, observa. Ela fala de histórias de grupos teatrais, atores, diretores… Foram cem minutos de conversa que passaram sem que se notasse.

Beth Néspoli tem sua receita para artigos críticos. Eles devem ser respeitosos, como se fossem para alguém da família, e apontar erros e acertos. Recentemente, Beth foi crítica consigo mesma e mudou os rumos de sua vida. Porém, ela continua seguindo as trilhas que o teatro lhe abre.

 Formação acadêmica – 1ª parte

Eu sou o exemplo de que você não tem que se preocupar. Eu fiz vestibular para Medicina na UFF [Universidade Federal Fluminense], na época em que eu morava no Rio. Eu entrei para fazer psiquiatria. Só que em Medicina, o básico é ver os músculos, os ossos. Se você pensar, o corpo humano é carburador, combustível, uma máquina, e aquilo lá era uma chatice. Larguei Medicina e resolvi fazer Jornalismo. Eu sempre li muito, sempre escrevi diário, entrei em concursos de redação, essas coisas. Achei que a faculdade de Jornalismo me permitiria exercer a escrita e, além de tudo, tinha, pelo que pude ver na convivência nos corredores, uma turma mais aberta, mais animada e mais crítica.

Fiz outro vestibular, entrei na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], que é uma delícia, lá na Urca, na Praia Vermelha, aquele prédio antigo. Uma delícia… Era à tarde. Eu estava adorando, só que eu queria trabalhar, precisava ganhar dinheiro. Não estava aguentando ficar sem trabalhar, porque tinha uma família; eu sou a mais velha de cinco irmãos. Aí eu saí, fiz outro vestibular, agora para estudar Jornalismo à noite na UFF. Passei de novo. Passar no vestibular para mim era moleza.

 Contato com o teatro

Eu comecei a fazer outras coisas, como a CAL, a Casa das Artes de Laranjeiras. É uma escola de teatro do Rio. Quando ela surgiu, era coordenada por Yan Michalski, um crítico teatral polonês. A ideia era que fosse uma escola de excelência. Eu tive aula de um ano com a Juliana Carneiro da Cunha, que hoje é primeira atriz no Théâtre du Soleil; com Alcione Araújo, que, além de ser um dramaturgo, é um intelectual, um cara de uma cultura geral ampla, muito legal; com o próprio Yan Michalski, que dava aulas teóricas; com a Beth Rabetti, uma dramaturga, teórica de teatro. Então, aquela escola, naquele momento, era muito mais viva, muito mais pulsante do que a universidade. Quando cheguei naquela escola de teatro, falei: “Caramba, aqui eu abro uma janela para o mundo!”. Então, o que fiz? Larguei a faculdade. De novo sem terminar. E fui fazer teatro.

 Busca pelo conhecimento

Fiz essa escola de teatro [a CAL]. Foram dois anos inteiros Acho que foi a experiência mais fascinante que eu tive em termos de aprendizado, porque, se você não tem uma família intelectualizada – meu pai fez só primário -, vai aprendendo muito depois. Formação é uma coisa que eu estou correndo atrás o tempo todo, o tempo todo eu sinto falta.

 As necessidades do Jornalismo Cultural

Para o teatro, você precisa da química, precisa da física, mesmo a política. Quando você vai para o Jornalismo Cultural, tem que saber tudo. Quando vai ver “Copenhagen” [peça teatral do inglês Michael Fray] – não é que tem que saber tudo, mas você se abre pra muitos conhecimentos -, vai ver uma peça sobre física quântica, de dois grandes cientistas que foram importantíssimos na criação da bomba atômica. É ali: física quântica. E aí toda a estrutura da peça, toda a direção foi criada, todo o primeiro ato da peça. Eles pegam a física clássica, a relação de causa e efeito. Todo o segundo ato é física quântica, teoria da incerteza. Ou seja, você vai abrindo conhecimentos.

 Formação acadêmica – 2ª parte

Um amigo meu, que tinha feito comigo a UFF, é o Evaldo Mocarzel, durante muito tempo editor do “Caderno 2”. Ele fazia um negócio que era o caderno temático aos domingos. Então, ele pegava um tema e todo o caderno era sobre aquilo, com ensaios. Era muito interessante. E ele, conversando comigo – eu estava lá no Rio ainda -, começou a me mostrar o caderno. Eu falei: “Gente, o que estou fazendo?”.

 

Eu já tinha desistido do teatro, quer dizer, já tinha desistido entre aspas. Tinha feito direção de uma coisa, mas, assim, o teatro me interessava como conhecimento. No palco, era uma desgraça! Lembro de quando eu subia no palco: pensava que era igual dentista. Sabe quando você está sofrendo com o motorzinho? “Uma hora vai acabar”, pensava. Era a mesma coisa. Eu não tinha prazer em estar no palco. Nenhum. Mas eu tinha o maior prazer de estudar teatro. Então o que eu fiz? Voltei para faculdade de Jornalismo.

Agora eu tinha 34 anos. Fui para Faculdade da Cidade, uma particular porque eu estava com trauma das federais – um bando de funcionário público encostado. Não é uma faculdade de renome, nada disso, mas eu encontrei alguns bons professores. Eu era aquela do “não estou aqui para perder tempo”; já não tinha mais vergonha de ser “CDF”.

Em 1995, eu ainda não tinha terminado a faculdade – eu me formei no final de 1996. Faltava um ano e meio para eu terminar a faculdade. Liguei para o Evaldo e falei: “Estou fazendo faculdade, quero ser jornalista”. Aí, ele começou a me pedir matéria. Eu comecei a escrever para o “Caderno 2”, lá do Rio, em 95.

 O início no “Caderno2”

Minha primeira entrevista era para um negócio chamado “Encontros Notáveis”, no “Caderno 2”. Cada sábado tinha um encontro notável, que era uma entrevista enorme. Era a capa e as [páginas] centrais. Eu fiz com o José Wilker, que tinha toda uma história no teatro do Rio.

Daí eu comecei a fazer minhas matérias para o “Caderno 2”. É interessante porque eu fazia muita matéria de teatro; era a coisa que eu mais gostava. E o Evaldo falava assim para mim: “Não, você não pode fazer só teatro, sugere outras coisas”. Fiz algumas matérias de artes plásticas, algumas de livro – adoro literatura – e fazia teatro, teatro, teatro, o que eu gostava.

 A redenção pela especialista

O Evaldo falou para mim assim: “Olha, Beth, eu tenho muitos bons repórteres para fazer matéria de teatro. O Toninho [o jornalista Antonio Gonçalves Filho] faz matérias de teatro muito bem, mas eu não tenho ninguém que defenda o teatro como você, ninguém que tenha essa briga pelo teatro, e eu acho que isso é importante para o caderno”. E eu fui contratada por causa disso. É engraçado porque eu desobedeci o editor. Ele falava: “Faz outra coisa”. Aí eu fazia algumas coisinhas aqui. Mas [teatro] era o que eu tinha tesão em fazer, o que eu gostava de fazer, o que eu fazia inteira, com vontade de fazer. Como eu disse, o teatro não é uma coisa que te fecha o conhecimento. O teatro trata de tudo. De alguma forma, a cada peça você aprende alguma coisa. Mas eu acho [importante] que brigar pelo que você acredita. E deu certo, no final das contas.

 Técnica de entrevista

Eu acho que, quando você chega para entrevistar alguém, a pior coisa que tem é tietagem. Horrível! Mas se você chega lá e diz assim: “Nossa, eu vi aquele seu trabalho, aquela peça, tem aquela cena, que impressionante”, tem alguma coisa para dizer sobre o trabalho dela. Por exemplo, eu fui fazer uma entrevista com o Antonio Torres [escritor]. Eu li todos os livros dele. Aí falei para ele: “Nossa, tem umas frases que se repetem”. E ele: “Se repetem?”. Ele não tinha se dado conta. E disse para mim: “Nossa, eu tive alta do meu analista com esse livro”. Enfim, é um detalhe. Mas quero dizer é que, quando você vai entrevistar, se chega no cara e diz uma coisa dessas, ele fala: “Poxa, eu estou diante de alguém que teve o cuidado de ler, o cuidado de conhecer a obra”. Eu acho que isso no Jornalismo Cultural é muito importante. Mesmo que você fale uma besteira, mesmo que o que você fale a pessoa diga: “Não, não concordo”. Ele entende que você é alguém que não chegou de pára-quedas, que você conhece o trabalho.

 A base das reportagens

A minha formação era basicamente teatral, tinha a formação da faculdade. E ser um jornalista é alguém que tem uma formação mais ampla, um olhar crítico, que sabe perguntar. Você, como jornalista cultural, eu acho que faz um pouco dessa ponte com o leitor. Aqui tem um diretor, que tem uma superformação de teatro, que quer falar uma coisa; ou um artista plástico, que tem todo um pensamento para criar aquilo; tem um cineasta, que tem toda uma crítica de mundo para criar um filme. O que o leitor aqui da ponta vai ver é esse filme, é a ponta desse filme. Você, não digo nem como crítico, como jornalista cultural – crítica é uma outra coisa – o que faz? Você vai lá, entrevista o cara, descobre tudo isso, lê um pouco em volta para poder tirar dele as perguntas mais legais, tirar as respostas mais legais. Aí você vai pegar esse material e vai contar para o leitor, não para estragar a graça, esse é o barato: como que se fala de um filme sem contar o filme? O que ele quis com isso, o que quis dizer com isso? Se ele conseguiu ou não, aí é o segundo momento, é o papel do crítico. Você pode não estar instrumentalizado, mas todo mundo que vai ver um filme faz a crítica, não é? Você faz a sua crítica informal no bar.

 Crítica X Reportagem

Eu faço as duas coisas, e são textos muito diferentes. Eu sou muito mais uma jornalista de teatro, eu fiz pouca crítica na minha vida. E é muito difícil fazer crítica, é um texto muito diferente. Não é um texto para você dar informação sobre o espetáculo; é um texto para você ir nos pontos para fazer essa leitura crítica. É uma leitura do espetáculo.

Eu sinto muita dificuldade de fazer crítica ainda, eu acho que teria que me formar muito mais. Eu fiz algumas críticas – a gente chama de crítica aquilo que saiu com o selozinho “crítica”. A própria escolha do que você vai falar ou não já é um critério crítico. Claro que não depende só de você – tem um editor e tudo isso -, mas você briga por algumas coisas; “não, porque isso aqui é importante”. Isso é um critério crítico: por que é importante? Você está partindo de critérios para brigar por uma matéria e não por outra. Sei lá, Cirque du Soleil, não é uma coisa que me interesse pessoalmente, nem como gosto. Eu acho uma coisa industrial. Não precisa de divulgação do jornal, por exemplo, não precisaria da matéria de estreia. Eu acho que seria legal você fazer a crítica do Cirque du Soleil. Mas também não sei se eles estão interessados nisso, se as pessoas que vão estão interessadas nisso. Não é uma coisa que eu tenha vontade de fazer.

Agora, pegar o Êxodos que está lá debaixo do Minhocão, aquilo me interessa trazer para a página. A pessoa não vai ver aquilo se não estiver muito avisada porque eles não vão ter dinheiro para fazer chamada na televisão. Como é que você sabe que Êxodos está em cartaz? Como você sabe que Êxodos pode te interessar? É esse o papel do Jornalismo Cultural, eu acho. Não vai dizer que você tem que ver, mas vai fazer alguma coisa de “olha, tem isso aqui”. Eu me sinto mais jornalista nesse sentido. E eu tenho desejo, eu gosto de fazer isso, eu tenho uma alegria de fazer isso. É o grande retorno de você olhar na página e… “Poxa, isso está aqui porque você brigou para isso aqui estar na página”.

 O cuidado no texto crítico

Eu acho que você tem que chamar a atenção para o objeto. Seu texto tem que estar voltado para ter o desejo de analisar aquilo o melhor possível e você ser respeitoso com aquilo. Ser respeitoso não é passar a mão na cabeça, não é você não ver os defeitos. Pense que você vai fazer uma crítica ao seu irmão. Seu irmão está fazendo uma coisa idiota. Você ama seu irmão. Tem que dizer com todas as letras o que ele está fazendo de errado, o que você não achou legal no comportamento dele. Poxa, você vai falar para alguém que você ama. Então você não pode ferir. A crítica já é, por si só, uma coisa ruim de ouvir quando ela é negativa. Mas se é positiva, tem que saber o que você fez, por que seu ato foi legal. Isso é mais difícil, essa tem que ser a preocupação.

 Respondendo aos leitores

Uma vez eu escrevi uma crítica sobre um espetáculo dos Parlapatões, que eu gostei muito. Um leitor mandou um e-mail para o jornal perguntando se a Beth Néspoli recebia dinheiro ou era líder dos Parlapatões, “porque era um absurdo ela ter gostado da peça”. Eu disse para o editor: “Eu vou ligar para essa pessoa”. Liguei e falei: “Eu não ganhei dinheiro dos Parlapatões e isso [a acusação] é algo muito grave, e nem sou amiga deles. E mesmo que fosse, isso não deveria influenciar minha crítica. Eu fiz uma crítica que você pode concordar ou discordar, baseada em elementos estéticos. É muito grave você me fazer uma acusação dessas. Eu quero te deixar bem claro que se você não concorda com a minha crítica, se a crítica é idiota, é uma idiotice minha, é uma limitação minha como crítica. Mas eu não recebi dinheiro, não sou amiga deles”. Todas as vezes que eu recebi uma carta, eu respondi por e-mail ou liguei, dependo do caso.

 Conciliar a reportagem com a crítica

Eu acho que é muito difícil fazer as duas coisas. O ideal é conseguir separar. Seria você ser só crítica. Não acho que é problema ir lá, conversar, ver ensaio, nada disso. Se pode fazer tudo isso e escrever uma boa crítica. Agora, o difícil é que se fica um pouco com o que a pessoa quer dizer na cabeça. Isso eu acho mais complicado. Quando você vai ver o espetáculo, você vê aquilo que, de alguma forma, ele quis falar; é mais fácil você ver. O cuidado que tem que tomar é esse: foi lá, entrevistou, sabe que o cara quer fazer uma crítica política e chega lá, não encontra, e você tende a meio que dar uma perdoadinha.

 Saída para uma nova fase na vida

Eu acabei de sair do “Estadão”. Eu cansei, estava com vontade de fazer outra coisa, de dar um salto qualitativo no meu texto. Aí eu fui fazer o mestrado na USP [Universidade de São Paulo] em Artes Cênicas. Estava muito difícil fazer junto com o jornal porque as redações enxugaram demais. Você não faz mais nada a não ser trabalhar e estudar. Mais nada.

Eu também quero namorar, quero brincar com a minha enteada, eu quero ver uma exposição. Não posso ficar vendo só o teatro. E eu não conseguia. Tinha que ficar estudando, escrevendo sobre teatro, falando sobre o teatro. Eu vou ficar muito fechada, né? É muito cansativo.

 Volta à Academia em nova função

Tenho vontade de dar aula. Adoro dar aula, é uma coisa que eu fiz antes. Eu dava aula de tudo para quem estava fazendo vestibular: Matemática, Química, Física… todas as matérias. Eu era formada em vestibular. Na faculdade, tinha Semiótica, Teoria da Significação. Era uma matéria que reprovava muita gente. Tinha uma aula vaga, e eu comecei a ir para o quadro e ensinar. Eu repetia a aula do professor, com mais clareza e tal. Começou a juntar gente. Daqui a pouco a turma inteira ia para aula vaga.

Meu sonho do futuro é assim: eu dou aula na Cásper, do lado da minha casa – tem Jornalismo Cultural, não é uma picaretagem. Eu posso dar aula de Jornalismo Cultural e vou fazer algum programa de teatro na rádio Jovem Pan. Tudo pertinho de casa. Porque eu estou ficando uma velhinha cansada, não estou mais a fim de ralar muito.

OS EDITORES DE BETH 

Beth é uma profissional muito séria, ética, apaixonada por cada pauta que faz, empolgada com os mínimos detalhes. Adora chegar na redação e contar tudo o que viu no palco, nos bastidores, dividir suas emoções com os editores e colegas. Tem pudores de assinar textos com os quais não está totalmente satisfeita. Não tem vaidades de foca. Ela sempre me informou sobre cada passo dessa sua atual decisão de se entregar com afinco aos estudos acadêmicos. Por isso não me surpreendi com seu pedido de afastamento. Aprendi muito com ela e os leitores também. O teatro vai ganhar uma mestra e tanto, tenho certeza disso. E espero poder contar com ela nas páginas do Caderno 2 em breve, como colaboradora.

Dib Carneiro Neto, editor do “Caderno2”

 Rigor e generosidade. Acho que o trabalho da jornalista e crítica de teatro Beth Néspoli tem essas duas qualidades essenciais para uma análise clarividente de obras de arte. Beth é muito rigorosa e, ao mesmo tempo, muito generosa. Não está ali para demolir ninguém. Seus textos irradiam um profundo amor pelo teatro. Acho que é isso que me fascina em alguns críticos: tentam, com rigor e generosidade, deslindar um espetáculo, contextualizando-o com erudição e, ao mesmo tempo, procuram vislumbrar em cada cada peça, em cada encenação, os três mil anos de história do teatro.

Evaldo Mocarzel, colega de faculdade e ex-editor do “Caderno2”

 

A CRÍTICA SOBRE OS OUTROS CRÍTICOS

Mariângela Alves de Lima (O Estado de S. Paulo):

Acho fantástica, maravilhosa. Ela não faz a crítica do “gostei, não gostei”, o que eu acho fundamental. Ela faz uma crítica que pega um ângulo de leitura da peça.

 Luís Fernando Ramos (Folha de S.Paulo):

Admirei a coragem dele ao assumir a função de crítico. Coordenador do departamento de Artes Cênicas da USP, ele poderia se manter escrevendo em espaços acadêmicos importantes, porém restritos ao leitor antenado. No entanto, arriscou-se no exercício da síntese que poda o pensamento, quase anuladora, da atual crítica jornalística. Ter tal espaço ocupado por Luis Fernando é algo precioso para o teatro e, sobretudo, para o público teatral não “iniciado”.

 Silvia Fernandes (sem veículo):

A escrita de seus artigos,consegue fazer ou “revelar” conexões estéticas entre diferentes espetáculos ou detectar as transformações na estética de um grupo ao longo de sua trajetória. E o faz unindo a filigrana do especialista à linguagem acessível ao leigo, dom de poucos.

 Dirceu Alves Júnior (Veja São Paulo):

Um cara muito bacana, gosto muito. Nem sempre a gente concorda, mas isso é uma outra história. O Dirceu é um cara que argumenta. Ele vai falar, explicar. Então você fala: “OK, isso que você achou ruim, eu gosto” ou “Por esse tipo de argumentação, eu vou”.

COLEGAS DE REPORTAGEM

 Beth é o tipo de jornalista que pondera sempre sobre qual será o impacto do seu trabalho na vida dos protagonistas da notícia. Ou seja: uma jornalista rara. O nível de responsabilidade com que exerce o jornalismo me impressiona. É simplesmente a melhor repórter da área de teatro do país – primeiro, porque vive o teatro como uma missão; segundo, porque acompanha o movimento teatral com critério, seriedade e preocupação social

Jotabê Medeiros, repórter do Caderno2

 Beth Néspoli é uma profissional dedicada como pouco vi na carreira. Sua dedicação ao teatro, especialmente o experimental, é rara, a ponto de pesquisar profundamente o assunto, o autor, a época em que escreveu a peça. Mais: além de escrever uma crítica aprofundada, sentia-se disposta a conversar com o grupo, sendo sincera em sua avaliação, mesmo que negativa, mas sempre construtiva.

 Ubiratan Brasil, repórter do Caderno2

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