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Maria Fernanda Cândido está no teatro em 2011

Perfil paulista
Por Raphael Scire

O início da Casa do Saber – instituição que realiza cursos e palestras sobre variados temas, como filosofia, história e atualidades – deu-se a partir de reuniões que um grupo de amigos fazia em 2003. Entre os presentes nesses encontros, estava a atriz Maria Fernanda Cândido, uma das atuais sócias. Para ela – curitibana, mas paulistana desde os 12 anos -, a inauguração do espaço de cultura, hoje com unidades em São Paulo e no Rio, foi uma iniciativa pioneira.

“Era uma experiência muito gostosa, mas, para tocar o negócio, fomos muito corajosos, pois não existia nenhuma referência.” Maria Fernanda recorda-se da dificuldade de explicar para as pessoas do que se tratava exatamente o novo espaço, o que era necessário, inclusive, na hora de trazer os professores para ministrarem as aulas. “Hoje, consolidamos um sistema de trabalho e uma imagem.”

Diz que sua função é trazer ideias para que a grade de cursos esteja sempre atual e renovada. Cada um dos sócios atua em uma área diferente, o que faz com que a programação seja a mais variada possível. A atriz revela que sua contribuição tende a ser mais na área artística. “A ideia de ter um anfiteatro foi minha, assim como a de fazer leituras teatrais.”

Terapeuta ocupacional formada, Maria Fernanda acredita que sua bagagem acadêmica contribui para sua vida profissional. “O terapeuta tem uma visão do todo: ser humano, vida, saúde.” Conta que é bastante ávida e interessada pelos cursos oferecidos na Casa do Saber, mas confessa que ultimamente não tem tido tempo para assistir a todos que gostaria. “Nos últimos anos, não consegui fazer nem um décimo do que gostaria, por conta do nascimento do meu último filho.”

Ler é uma de suas atividades favoritas, tanto que é frequentadora assídua de livrarias. E a poesia é uma das suas paixões. O primeiro autor que chamou a sua atenção foi o português Fernando Pessoa, depois o rol de escritores de sua preferência só foi aumentando. Hoje, cita também Edgar Allan Poe e João Cabral de Melo Neto.

Carreira artística. A atriz prepara-se para voltar aos palcos em 2011, com a peça O Demônio de Hannah, da qual comprou os direitos. Desde então, vem trabalhando na pré-produção do espetáculo. A ideia de montar a peça surgiu de um dos seus sócios na Casa do Saber, que assistiu à montagem e ligou para ela contando, entusiasmado.

Maria Fernanda encantou-se com a história da filósofa alemã Hannah Arendt, que teve um relacionamento com o também filósofo Martin Heidegger. “Muito mais do que a história de amor, há um embate ideológico, político e afetivo.” Refere-se à posição política assumida pelos dois personagens durante a Segunda Guerra Mundial: ele, filiado ao partido nazista; ela, judia que deixou a Alemanha para escapar das atrocidades de Hitler.

Paras as novela, porém, garante que ainda não é hora de retornar, por causa dos filhos pequenos. “É preciso uma disponibilidade de cerca de um ano.” Por isso, nos últimos anos, participou de projetos menores, como as minisséries Capitu, na qual atuou grávida, e Dalva e Herivelto, ambas na TV Globo.

Mãe de dois meninos, de 4 e 2 anos, Maria Fernanda concilia o trabalho artístico, a sociedade na Casa do Saber, os cuidados com a família e, de vez em quando, arruma tempo para ajudar no bistrô do marido, o chef Petrit Spahija – embora diga que só seleciona músicas e os artistas que expõem no restaurante. No dia a dia, define-se como uma pessoa marcada pela simplicidade. “Gosto de sossego, sou muito caseira. Minha família e meus filhos me fazem muito felizes.”

[Nota: este texto foi publicado originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”]

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Sempre uma gota sobra

Descansando de SP 
Por Luma Pereira

Leite Derramado, publicado em 2009, é o quarto romance do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque. O tema central é a saga de uma tradicional família brasileira, que, ao longo do tempo, passa por importantes contextos da nossa história.

Começando na época da côrte portuguesa e dos Impérios, o enredo abrange também o período da República Velha até os dias atuais. Mas o que confere genialidade a obra é quem a narra: o protagonista é um senhor doente de cem anos de idade no leito de um hospital. Sendo assim, a maneira como os fatos são relatados configura outro tema no livro, que se constrói à parte.

Eulálio Montenegro d’Assumpção conta a história da própria vida a quem quiser ouvir. A narrativa é baseada nas lembranças da personagem, o que confere à memória função de reavivar a identidade dele em sua própria mente.

Entretanto, ao narrar determinados acontecimentos, Eulálio inevitavelmente inclui a visão atual que tem sobre eles, romanceando a reconstrução dos fatos. Além disso, pronuncia as recordações em tom de confissão de vida.

Como se, no relato, acabasse também passando a limpo tudo o que vivenciou. Há uma passagem do livro em que o protagonista, revivendo o tão distante passado, reflete: “as pessoas mais novas têm de se acomodar de qualquer jeito num canto da minha cabeça”.

Devido ao avanço da doença e à utilização de medicamentos, a linguagem se torna desarticulada, e Eulálio às vezes perde o fio da meada. Assim, a narrativa é realizada no fluxo de pensamento do paciente, sendo que os flashbacks não-lineares ficam propositalmente confusos no texto.

Outro aspecto de relevância é a construção de imagens. A impressão é que de fato podemos ver os lugares e vivenciar as situações descritas pelo autor. Como na seguinte fala do protagonista, ao observar Matilde, sua amada: “o vestido de congregada mariana não lhe caía bem, era como uma roupa ao redor dela, solta na pele”.

Além disso, há no fim de quase todos os capítulos, uma frase que revela o retorno da personagem ao tempo presente. Por exemplo, a última frase do quarto fragmento, no qual Chico Buarque escreve: “tinha os cabelos molhados sobre as costas nuas, mas acho que agora já entrei no sonho”, interrompendo a narrativa do passado e voltando à cama do hospital onde Eulálio se encontrava.

Há em Leite Derramado essa alternância entre a fantasia das experiências do protagonista e a realidade. Ele é livre nas próprias recordações e, ao mesmo tempo, preso àquele corpo debilitado e enfermo.

A obra de Chico Buarque é um drama, porém o protagonista não é digno de piedade. Apesar de estar no fim da vida, confinado num hospital, ele consegue aproveitar os últimos momentos da existência recordando os acontecimentos pelos quais passou. Ainda pode sentir o aroma dos anos da juventude e lembrar-se do amor que sentia por Matilde. O leite está derramado, pois tudo de bom e de ruim já ocorreu.

Porém, a imagem do líquido completamente fora do copo é a arte do passado vivido intensamente. Na parte final do livro, Eulálio reflete, ainda, que “certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida”.

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Viagem interplanetária da crise humana

Por Flávia Leal

Conheci um casal singular em uma viagem. Vinte anos de casados, nenhum filho, ambos professores universitários, ela, de literatura, ele, de história. Após passar uma semana convivendo com os dois, vi como a crise conjugal é o cerne da experiência humana de resignação e de comprovação da existência de anseios cruéis. Escrevi o texto a seguir e, para a composição deste, imaginei-o como uma “epifania cosmogônica”, sendo que tal estilo representa a viagem interior de um homem com quarenta anos, cansado consigo mesmo. Para essa finalidade, usei uma linguagem poética, principalmente por meio de antíteses, para mostrar as dúvidas e as características que separam o casal no cotidiano de suas vidas, procurando sempre evidenciar a questão filosófica da existência e dos sentimentos humanos.

Majerofe revirava entre os lençóis. A luz fraca, o zunido que o virar de página do jornal fazia e o cheiro do cigarro, inebriavam-no como outrora não era motivo de incomodo. Pelo contrário, a insônia de sua esposa era o que mais o atraia. Sentia-se como um amante em constante duelo com a consciência inquieta de Etérea e, toda noite, ele era o vencedor. Recebia prêmios pela sua tranquilidade superior, enquanto ela era toda explosão pela natureza alerta. “Querido, não consegues dormir?”, questionava com a inocência que soava falsa. Cala-te, por favor. Faças isso e seja essa lua negra que assusta pela invisibilidade outro inocente passante, era o que o corpo dele falava pelas mãos escondidas que esmagavam o travesseiro.

“Escute essa manchete: estudo brasileiro reforça hipótese de que vida na Terra veio do espaço”, e Etérea continuava com suas adagas vocabulares: “alguns cientistas defendem a teoria da panspermia, de acordo com a qual a vida pode não ter se originado na Terra e sim, que teria vindo de outro ponto do universo, ou seja, uma forma de vida primordial, que os estudos representam por bactérias, seria resistente a uma viagem interplanetária.” E a aparente apatia com que terminava o discurso, transformava-se na exclamação do seu despertar insone de todas as noites: “Amor, é praticamente uma invasão alienígena!”. Majerofe recordou o primeiro encontro dos dois. Ele estava no epicentro do furacão e o frenesi o desfalecia a compassos de um mártir involuntário. Apaixonara-se assim que vira como a universitária citava Baudelaire, falava do espaço e, entre tragadas, aspirava todo o ser do desarmado aborígine que se encantara com o espelho do colonizador. E, vinte anos depois, o cheiro do cigarro continuava, e ele era ainda dominado pela civilização imperialista que o aculturou.

Etérea continuava sua análise forçada de uma madrugada ilógica sobre a origem terrena e, quiçá, sobre a origem da vida e o sentido do cosmo. O marido virou-se e, encarando-a profundamente imaginou no que ele havia se transformado. Onde estaria a chave que trancou seus sentidos e, numa casa de janelas verdes, trancafiou sua loucura solitária? Ele já estava condenado a essa paixão alienada. Ponderava em silêncio que ela só pensava no espaço e ele só exigia duração, tal como a música que tocou na valsa de casamento: catavento e girassol, os opostos que iam ao sumidouro de um cotidiano agora dividido.

“Determinadas bactérias, em determinadas condições, poderiam sobreviver a uma aventura espacial dessa natureza”, acrescentava Etérea e, o meia-idade petrificado ao seu lado imaginava que a Deinococcus radiodurans, a espécie em questão, explicava a origem de sua esposa. Agora estava tudo claro. A teoria da paspermia esclarecia a ancestral alienígena que ele convivia nas bodas de porcelana dos vintes anos passados com uma estrangeira planetária.

 Majerofe a via como o único ser capaz de suportar as extremas condições de uma viagem dessas pelo universo. E como era revigorante imaginá-la como uma bactéria. Cala-te, seu ser microscópico, aceite sua invisibilidade, gritava a plenos pulmões de sua epifania gladiadora. “Querido, que interessante essa pesquisa, não é mesmo?”, questionava Etérea ao marido quando, na realidade, confirmava a si mesma mais uma descoberta para as suas divagações leigas de uma leitora esclarecida. Na verdade, uma déspota, pensava o homem ao seu lado e, enquanto adormecia, seu semblante tornava-se calmo com os dizeres sonolentos que saíam levemente de sua boca: uma bactéria tirana.

  Etérea e Majerofe representaram para mim como a convivência humana é conflitante. Enquanto um grita em silêncio, o outro se ensurdece nas próprias conclusões, sem se importar na realidade com a crise alheia, que em um casamento, é conjunta. Imaginei o marido em enlace constante com o universo de si mesmo e em busca da dúvida perene: de onde viemos?

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Jornalismo com literatura

Por Flávia Leal

O jornalismo e a literatura estão cada vez mais interligados. Os dois caminham juntos desde muito antes do termo “new journalism” aparecer como conceito e entre as páginas de autores do século XX. A labuta em periódicos, de escritores que marcaram época, é mais antiga.

Em meados do século XVIII, conhecido como o período das luzes, o liberalismo econômico e a revolução francesa mudavam as concepções da sociedade e a burguesia subia ao antigo trono do monarca, tornando-se então a detentora do poder político. Liberdade, igualdade, fraternidade, essa tríplice não foi de todo sucesso e teve um tempo limitado, porém a nova classe emergente atendeu a uma necessidade feita pela outra revolução, a Industrial: o desenvolvimento da imprensa.

As novas tecnologias proporcionaram o aumento dos periódicos e a quantidade de informação, fazendo com que no século posterior surgissem escritores que escrevessem para jornais como o francês Honoré de Balzac, autor do clássico “A comédia humana” e Émile Zola, considerado o precursor do naturalismo com o livro que o consagrou, “O Germinal”. Críticos e polêmicos tentavam traçar um panorama da realidade humana. Para isso, uniram a observação e o contato com os personagens verdadeiros que conheciam no cotidiano, aliando o trabalho de jornalista com o talento de escritor.

No Brasil, Machado de Assis ficou conhecido como um múltiplo autor dentro das redações de jornais, como nos periódicos “Diário do Rio de Janeiro” e “Marmota Fluminense”. Lima Barreto, em seu romance “Recordações do escrivão Isaias Caminha”, usou como personagem principal do livro um repórter, considerado o seu alter-ego. Outra figura chave é o dândi carioca, aquele que recebeu a alcunha de primeiro repórter investigativo no Brasil: João do Rio. Com o faro jornalístico do “A alma encantadora das ruas” ele escreveu com oscilações entre crônica e reportagem.           

O jornalismo literário aparecia, diminuindo a fronteira entre o jornalista e o escritor. O norte-americano Truman Capote sintetizou essa união com o livro “A sangue frio” considerado o primeiro romance de “não-ficção”, em que fatos reais são misturados à liberdade da imaginação literária. O termo novo-jornalismo foi então consolidado.

Gay Talese com o seu livro sobre a história do jornal The New York Times, “O reino e o poder”, escreveu uma extensa reportagem utilizando a técnica do romance. Ao analisar o periódico americano mais lido dentro dos EUA e uma das maiores potências em termos de informação, e ter usado a forma literária de escrever, Talese pôs fim às dúvidas anteriores sobre a eficácia e a permanência do jornalista que é ao mesmo tempo literato.

A revista brasileira “Realidade” dava espaço a jornalistas, que também eram escritores ou vice-versa, a fazerem história com o jornalismo literário. Eles vivenciavam a experiência como repórteres e personificavam o homem atrás da máquina de escrever da época.

Àqueles que foram dados como iniciantes no processo de aproximação entre as letras imaginadas com as relatadas, o cânone é universal. Os que vieram depois ajudaram a confirmar que a forma não é ultrapassada ou indica um determinado período histórico. Jornalismo literário representa o novo. Perfis, ensaios, conto-reportagem, romance sem ficção, aparecem cada vez mais em jornais e revistas especializadas.

O jornalista tem a oportunidade de escrever para reportar, mas também para criar. A literatura chega a diversos veículos de informação. Num país em que o número de leitores é baixo, a aproximação entre ficção e realidade nos periódicos faz com que mais pessoas se interessem pela arte da escrita literária. Novos escritores nas redações, já.

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Boas vindas

Idealizado por um grupo de alunos da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, o blog ESPELHO SP promete refletir as tendências das ruas da capital paulista para o mundo virtual, criando uma agenda com as principais atrações paulistanas.

O leque de temas apresentados por esta página incluirá os pontos turísticos presentes na metrópole – alguns destes, inclusive, pouco conhecidos dos visitantes –, os eventos culturais que sempre agitam os habitantes da cidade, o povo que vive na “terra da garoa” (desde os próprios paulistanos até as pessoas vindas de outras partes do País ou do mundo) e tudo o que representar esta verdadeira “selva de pedras”.

São Paulo, portanto, será o tema sempre recorrente neste endereço da web. A abordagem, como colocado, não focará apenas em um determinado assunto da metrópole, pendendo para as várias partes que forma a maior cidade do Brasil.

A partir de agora, você tem um encontro marcado semanalmente com a equipe do blog ESPELHO SP para saber um pouco mais sobre o que está rolando e o que vai rolar nesta desta metrópole.

Até mais e um abraço,

Flávia Leal

Tem 20 anos e busca no jornalismo a profissão, mas é também estudante de história. Sua grande paixão é a literatura e, através dela, tenta entender os arredores. Possui grande interesse por cultura regional, seja ela de onde for.

José Roberto Gomes Júnior

Tem 20 anos, é estudante de Jornalismo e trabalha na área de radiojornalismo. Gosta de aviação e também da história da cidade de São Paulo, embora venha do interior do estado.

 

Nathan Lopes

Nascido em São Paulo (SP), é, atualmente, estudante de Jornalismo.

Priscila Pires

Nasceu em 1990, é estudante de jornalismo e gosta de livros e música. Sonha conhecer o mundo.

Raphael Scire

Tem 21 anos. Protótipo de jornalista, não vive sem internet, mas curte mesmo a boa e velha televisão. Gosta de dramaturgia. Gosta de teledramaturgia. Gosta mesmo é de um drama. Escreve sobre teatro e televisão.

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