Máscaras

Descansando de SP

Por Nathalie Ayres, especial para o EspelhoSP

O refúgio: um lago subterrâneo, por trás dos alçapões da Ópera de Paris. A figura vive coberta por uma máscara branca como os ossos, que encerra o rosto deformado desde o nascimento. A pele mais parece uma carne apodrecida; mas a boca, um simples rasgo, é a morada de uma belíssima voz. O nariz, inexistente, por vezes é substituído por um de cera, que talvez torne o todo da face ainda mais bizarro.

E os olhos, bolas presas às órbitas nuas, tornam-se dourados na escuridão em que estão acostumados a enxergar. Suas mãos têm o cheiro da morte, e assim como são capazes de tirar uma vida sem remorso, podem criar as mais belas melodias ou as mais incríveis construções arquitetônicas. Seu nome? Erik, mas pode chamá-lo de “Fantasma da Ópera”.

Esse é o protagonista do livro homônimo do francês Gaston Leroux, publicado em 1911. Desde a infância, Erik foi rejeitado pela mãe, e depois pela sociedade. Então, ele viaja pelo mundo, sendo usado por sua inteligência, mas jogado fora depois. Até refugiar-se na Ópera de Paris, e passar a controlar o lugar de longe e entre as sombras, como um fantasma.

Um dia ele conhece a bailarina Christine, órfã e dona de uma voz latente, e se apresenta a ela como o “Anjo da Música”, lhe ensinando a melhorar seu canto. A pupila vira a nova soprano da casa de espetáculos e dona do coração do Fantasma. Mas a ascensão tem um preço, que no caso é a liberdade da moça, que submete-se a seu mentor com gratidão e repulsa. Para completar a trama, entra Raoul, um amor de infância de Christine, que luta para que ela não seja engolfada pela escuridão de Erik, completando um intrigante triângulo amoroso.

Um fato interessante é que Leroux não tirou tudo apenas da imaginação. Realmente existe um lago subterrâneo na Ópera de Paris, que o autor visitou antes de escrever o romance. E a queda do lustre, uma das maldades provocadas por Erik, também é verídica, e é atribuída a um militante anarquista.

A obra se tornou célebre principalmente após de sua adaptação para musical, feita pelo compositor Andrew Lloyd Weber, que a dedicou à Sarah Brightman, a primeira intérprete de Christine. A peça já foi encenada em 24 países, inclusive no Brasil, no teatro Abril, durante os anos de 2005 e 2006. Além dela, muitos filmes também foram feitos, o mais antigo em 1925. Mas as adaptações misturaram a peça e o livro, e tiveram inúmeras mudanças no enredo, como as origens do Fantasma ou seu destino final.

A figura do Fantasma da Ópera é ao mesmo tempo mágica e temível, e tem povoado imaginários há anos. Ele passa a melancolia de quem poderia ter tudo na vida, graças à sua genialidade, mas que, devido à aparência deplorável, se torna um reles excluído, tornando-se, assim, frio e cruel. Mas do que um triângulo amoroso, a história traça um retrato da sociedade burguesa parisiense e de suas inúmeras máscaras sociais, que priorizam a beleza acima de todas as coisas. Erik é um espelho desse contexto, mas não através de sua aparência, e sim com sua alma corroída e amarga. Ele não passa daquilo que fizeram dele.

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