A Sete Chaves

Descansando de SP
Por Luma Pereira

A Vila (The Village) é um filme estadunidense de 2004, realizado pelo diretor Manoj Nelliattu Shyamalan, cineasta indiano naturalizado norte-americano. Conta a história de uma aldeia isolada, na Pensilvânia, cujos 60 habitantes convivem fora da civilização. Não há dinheiro, sendo que a produção é voltada para o próprio sustento e dividida entre todos.

Devido à violência que predomina nas cidades, escolheram viver desta maneira, em paz e harmonia. Além disso, realizam um acordo de jamais ninguém sair da vila, nem nunca deixar pessoas de fora entrar na mesma. Entretanto, em volta do local há uma floresta, na qual supostamente residem criaturas estranhas, que os moradores costumam chamar de “aqueles-de-quem-não-falamos”.

Os principais temas abordados no filme são o medo e a fuga. O enredo consiste num grupo de seres humanos que fogem dos receios e perigos da existência. Tentam criar um mundo ideal, fechado em si mesmo, supostamente livre de maldades – a vila. Querem formar uma sociedade perfeita.

Entretanto, ignoram a natureza humana, que em algum momento mostra as fraquezas, tendo, no mínimo, sete pecados capitais para cometer. Além disso, preferem viver o medo de mentira que têm das criaturas, em vez de enfrentar as imperfeições do ser humano – inerentes a nós. Os inomináveis do bosque representam o receio quanto ao exterior, supostamente justificado pela idéia do isolamento por segurança. Os habitantes da vila se fecham a sete chaves.

O filme de Shyamalan é também uma metáfora do mundo atual. Hoje em dia, fechamo-nos nas convenções sociais, ignorando tudo o que não faça parte delas. As convicções são intensas e tomadas como verdades absolutas, sendo que a diferença não é bem vinda. Inventamos medos para justificar nossas próprias atitudes e conduta. Idealizamos lugares para nos proteger. Vivemos como prisioneiros, em vilas particulares, as quais vão se limitando até formar um vilarejo individual. Como se a vila fosse a representação da vida em família, na qual supostamente não há perigos nem maldades de uns com os outros – há amor. E então, restringimos mais, e a vila passa a ser representada pelo nosso próprio corpo como propriedade pertencente a nós mesmos.

Além disso, na sociedade contemporânea, o medo nos acompanha o tempo todo, causando até mesmo patologias pós-modernas, como a síndrome do pânico, por exemplo. No enredo, o líder da aldeia, Edward Walker (William Hurt), e a conselheira Alice Hunt (Sigourney Weaver), cuidam para que nenhuma das pessoas se aventure pela floresta – para que não enfrentem o medo. Além disso, há na aldeia vigias que observam tanto se o lugar está seguro das criaturas quanto se nenhum habitante está tentando escapar. No mundo atual, a vigilância também é constante. Somos o tempo todo observados e monitorados – panóptico.

No decorrer da película, morre o filho de um dos dirigentes, August Nicholson (Brendan Gleeson), devido à falta de medicamentos. Lucius Hunt (Joaquin Phoenix), então, quebra o acordo e sai da aldeia em busca de remédios. Além disso, o jovem almeja ultrapassar os limites do lugar, a fim de explorar o desconhecido. Lucius é apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), moça cega nascida no vilarejo, que também desperta o interesse de Noah Percy (Adrien Brody), garoto mentalmente desequilibrado. Quando Lucius volta ferido da aventura, é Ivy quem terá de enfrentar os medos e sair em busca de ajuda no mundo exterior.

Com um final surpreendente, A Vila nos faz refletir sobre o que seriam, para nós, as criaturas sobre-as-quais-não-falamos. A violência e os medos interiores de cada um, por exemplo, é que trancam as nossas próprias vilas. A personagem cega Ivy foi buscar os remédios para seu amado Lucius, e por amor enfrentou o medo das criaturas e do desconhecido – as fronteiras são imaginárias. E os monstros, são feitos de mentiras. É preciso sete chaves para abrir cada porta das nossas vilas – mas a fechadura será sempre apenas uma.

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