Sempre uma gota sobra

Descansando de SP 
Por Luma Pereira

Leite Derramado, publicado em 2009, é o quarto romance do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque. O tema central é a saga de uma tradicional família brasileira, que, ao longo do tempo, passa por importantes contextos da nossa história.

Começando na época da côrte portuguesa e dos Impérios, o enredo abrange também o período da República Velha até os dias atuais. Mas o que confere genialidade a obra é quem a narra: o protagonista é um senhor doente de cem anos de idade no leito de um hospital. Sendo assim, a maneira como os fatos são relatados configura outro tema no livro, que se constrói à parte.

Eulálio Montenegro d’Assumpção conta a história da própria vida a quem quiser ouvir. A narrativa é baseada nas lembranças da personagem, o que confere à memória função de reavivar a identidade dele em sua própria mente.

Entretanto, ao narrar determinados acontecimentos, Eulálio inevitavelmente inclui a visão atual que tem sobre eles, romanceando a reconstrução dos fatos. Além disso, pronuncia as recordações em tom de confissão de vida.

Como se, no relato, acabasse também passando a limpo tudo o que vivenciou. Há uma passagem do livro em que o protagonista, revivendo o tão distante passado, reflete: “as pessoas mais novas têm de se acomodar de qualquer jeito num canto da minha cabeça”.

Devido ao avanço da doença e à utilização de medicamentos, a linguagem se torna desarticulada, e Eulálio às vezes perde o fio da meada. Assim, a narrativa é realizada no fluxo de pensamento do paciente, sendo que os flashbacks não-lineares ficam propositalmente confusos no texto.

Outro aspecto de relevância é a construção de imagens. A impressão é que de fato podemos ver os lugares e vivenciar as situações descritas pelo autor. Como na seguinte fala do protagonista, ao observar Matilde, sua amada: “o vestido de congregada mariana não lhe caía bem, era como uma roupa ao redor dela, solta na pele”.

Além disso, há no fim de quase todos os capítulos, uma frase que revela o retorno da personagem ao tempo presente. Por exemplo, a última frase do quarto fragmento, no qual Chico Buarque escreve: “tinha os cabelos molhados sobre as costas nuas, mas acho que agora já entrei no sonho”, interrompendo a narrativa do passado e voltando à cama do hospital onde Eulálio se encontrava.

Há em Leite Derramado essa alternância entre a fantasia das experiências do protagonista e a realidade. Ele é livre nas próprias recordações e, ao mesmo tempo, preso àquele corpo debilitado e enfermo.

A obra de Chico Buarque é um drama, porém o protagonista não é digno de piedade. Apesar de estar no fim da vida, confinado num hospital, ele consegue aproveitar os últimos momentos da existência recordando os acontecimentos pelos quais passou. Ainda pode sentir o aroma dos anos da juventude e lembrar-se do amor que sentia por Matilde. O leite está derramado, pois tudo de bom e de ruim já ocorreu.

Porém, a imagem do líquido completamente fora do copo é a arte do passado vivido intensamente. Na parte final do livro, Eulálio reflete, ainda, que “certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida”.

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