República dos discos no centro de SP

Por Nathália Soriano

“As pessoas não conhecem muito aqui. Acham que é a Galeria do Rock“. É assim que a dona da loja de discos Faunus, Sandra Imbiriba, define a galeria Boulevard do Centro, que fica na Rua 24 de Maio, onde há diversas outras lojas especializadas em compra, venda e troca de LPs, CDs e, também, DVDs.

A Faunus, que existe há cinco anos, começou como um hobby do marido de Sandra. “A gente já tinha alguns LPs em casa e meu marido resolveu abrir essa loja aqui. Quando começou, tinha entre 700 e 800 discos”. A loja que, no início, era pequena, atualmente ocupa duas salas. “A gente foi indo atrás, faz pesquisa, mas aparece bastante gente aqui pra vender ou trocar. É assim que a gente consegue alguns discos raros”.

Hoje, o LP mais caro na loja de Sandra é um de Bossa Nova – “Recordando”, de Carlinhos Guinle – e se alguém se interessar deverá desembolsar R$600,00. Mas há, também, coisas mais comuns, vendidas a R$2,00. Sandra acha bom o mercado de discos, mas que sofreu por causa da crise. “É supérfluo. Se a situação fica difícil, as pessoas deixam de comprar”.

Esse mercado, como explica a dona da Faunus, é para colecionadores. “As pessoas que vêm aqui é porque já conhecem, gostam de ter o vinil, tocar, limpar. É diferente daqueles que baixam a música ou compram um CD pirata. Esses só querem a música”. Sobre o aumento de downloads, Sandra é direta, “o MP3 não diminuiu a procura, por causa do público que compra LPs que é bem específico”. Em sua maioria, os clientes da loja são homens, de todas as idades. “Quando é uma mulher colecionadora, elas procuram por coisas mais difíceis ainda.”

O vinil mais caro, para Sandra, é o primeiro disco lançado por Roberto Caros. “Nunca tivemos esse disco, mas custa em torno de três mil reais!”

Ela pode não saber, mas na loja quase ao lado da sua, a Ventania, esse LP já foi vendido, e por R$2 mil. É o que conta Alcides Campos, diretor da loja que hoje tem mais de 60 mil discos – sem contar os 80 mil em estoque. A Ventania, que completou 25 anos em 2010, teve seu nome inspirado pela música homônima de Geraldo Vandré. “Na época eu gostava muito dessas musicas de protesto, queria um nome brasileiro”, explica Alcides.

Assim como Sandra, Alcides também acha que o mercado é, em sua maioria, para colecionadores. No entanto, “ultimamente tem aparecido um grupo mais jovem, que curte heavy metal”, diz.

Entre os discos raros há Bob Dylan, Beatles, Elvis – esses dois últimos são os mais procurados pelos clientes. Porém, mais raras ainda são as gravações de índios cantado, dos discursos de Hitler, Mussolini e Jânio Quadros, que algumas pessoas já pediram.

Ainda entre os artistas, muitos famosos já passaram pela loja, como Charles Gavin, Ed Mota, Marcelo Camelo, a banda Cachorro Grande, e o rapper Taíde. “Chico Science e Bezerra da Silva já vieram aqui também pra procurar seus próprios discos porque não tinham!”.

Para Alcides, a procura é maior que a oferta. “Muitos vêm aqui procurando coisas realmente boas. Por isso, às vezes é mais fácil vender um disco caro, de cem reais, do que aquele de um real”. O diretor da Ventania fala também sobre a pirataria e suas consequências ao mercado de CD. “O CD vai morrer antes do vinil por causa da pirataria”, afirma.

Algo em comum entre a Faunus e a Ventania é a decoração. O teto e as paredes de ambas as lojas são cheias de discos decorados, com figuras, como a da Branca de Neve, fotos de artistas, como Fábio Júnior, Angélica e Roberto Carlos e formas das mais diversas. Entre as mais curiosas estão as de telefone e sino, que foi lançada como um compacto comemorativo na época de Natal. Muitos são originais e realmente tocam. Outros serviram apenas como propaganda. “Uma vez um cliente comprou um com a foto da Gretchen por 500 reais”, conta Sandra.

A galeria é bem vazia, não muito conhecida pelo grande público. Os clientes que lá vão buscam coisas específicas, como é o caso de Marcelo Souza, de 27 anos, que estava procurando um disco dos Beatles. “Sempre que posso venho aqui. Gosto muito de vinil e aqui é um lugar muito bom pra se achar o que procura e tranquilo pra se procurar com calma”, explica Marcelo.

Mesmo sendo escondida, a galeria no centro da cidade de São Paulo não é esquecida. São os amantes da música e do vinil que sustentam lugares como esse e o mercado de discos que vem crescendo no país. Vitrolas voltaram a ser fabricadas e vendidas e, se depender de Sandra, Alcides e muitos outros que vivem da música e dos discos, esse mercado só vai crescer ainda mais.

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