“O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, ainda existe em SP

Por Priscila Pires

” (…) O Cortiço é a história envolvente e sombria de uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do Segundo Império, com seu mundo de pobreza e trabalho cercado de oportunistas e aproveitadores ambiciosos.”

 

Apesar de ambientado no Rio de Janeiro do século XIX, “O Cortiço” (1890) traz como protagonista uma realidade que ainda encontramos, por exemplo, em São Paulo: bairros centrais, como o Ipiranga, que abrigam muitas famílias em sobrados, casinhas e casarões.

Capa da edição publicada pela Martin Claret

A burocracia para se alugar uma casa é, de acordo com a manicure Helena Silva, antiga moradora de uma pensão no Cambuci, um dos motivos pela escolha dessa moradia. Para os autônomos, sem renda fixa, é difícil comprovar a possibilidade de arcar com as despesas de aluguel e condomínio, e nem sempre um fiador está disponível. Os cortiços representam, então, uma opção.

Diferentemente do século XIX, hoje a teoria do determinismo social não predomina na nossa cultura, pelo menos não oficialmente. Mas muitas das cenas descritas no livro naturalista, que coloca o cortiço como um organismo vivo capaz de influenciar até o caráter de seus moradores, não são impossíveis de acontecerem.

Trailer do Filme “O Cortiço”, de 1978. Direção de Francisco Ramalho Jr.:

A Estalagem São Romão compreendia um apinhado de casinhas, uma pedreira e uma taverna. As pensões paulistanas, no geral, limitam-se a uma casa antiga, com cômodos divididos entre as famílias. O banheiro é coletivo, porém aqueles que podem pagar um pouco mais conseguem, às vezes, suítes. Em algumas dessas pensões, é possível realizar pequenas intervenções nos cômodos. As brigas por barulho, cheiro, pagamentos atrasados são constantes, preço que se paga para morar mais próximo do centro por um preço mais barato.

Os moradores

  • Pagam aluguel de R$ 260 por mês (média)
  • São famílias pequenas (casais; casais com um ou dois filhos; solteiros e idosos)
  • Costumam trabalhar em atividades informais no centro
  • Os brasileiros vêm do interior de Minas Gerais e do Nordeste
  • Os estrangeiros são da Bolívia e do Paraguai
  • Têm renda média familiar de três a quatro salários mínimos
  • Somam, em média, 1,92 morador por cômodo

Não é permitido

  • Chamar o lugar de cortiço
  • Cães e gatos
  • Banho em casal
  • Escovar os dentes na pia de lavar as louças
  • Tocar a campainha depois das 22h
  • Deixar bicicletas ou máquina de lavar no corredor

Está liberado

  • Chamar o espaço de moradia coletiva ou pensão
  • Pássaros e tartarugas
  • Levar namorado (a) para dormir (desde que não vire inquilino informal)
  • Cada um carregar a sua própria chave e trancar a porta ao entrar ou sair

Fonte: Reportagem de Roberto de Oliveira, na Folha.com: Moradias coletivas colocam casarões em ordem para vistoria; veja slide show

Para ler “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, clique aqui.

Para saber mais sobre os cortiços de São Paulo: Os Cortiços em São Paulo – PCC-USP .

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