Viagem interplanetária da crise humana

Por Flávia Leal

Conheci um casal singular em uma viagem. Vinte anos de casados, nenhum filho, ambos professores universitários, ela, de literatura, ele, de história. Após passar uma semana convivendo com os dois, vi como a crise conjugal é o cerne da experiência humana de resignação e de comprovação da existência de anseios cruéis. Escrevi o texto a seguir e, para a composição deste, imaginei-o como uma “epifania cosmogônica”, sendo que tal estilo representa a viagem interior de um homem com quarenta anos, cansado consigo mesmo. Para essa finalidade, usei uma linguagem poética, principalmente por meio de antíteses, para mostrar as dúvidas e as características que separam o casal no cotidiano de suas vidas, procurando sempre evidenciar a questão filosófica da existência e dos sentimentos humanos.

Majerofe revirava entre os lençóis. A luz fraca, o zunido que o virar de página do jornal fazia e o cheiro do cigarro, inebriavam-no como outrora não era motivo de incomodo. Pelo contrário, a insônia de sua esposa era o que mais o atraia. Sentia-se como um amante em constante duelo com a consciência inquieta de Etérea e, toda noite, ele era o vencedor. Recebia prêmios pela sua tranquilidade superior, enquanto ela era toda explosão pela natureza alerta. “Querido, não consegues dormir?”, questionava com a inocência que soava falsa. Cala-te, por favor. Faças isso e seja essa lua negra que assusta pela invisibilidade outro inocente passante, era o que o corpo dele falava pelas mãos escondidas que esmagavam o travesseiro.

“Escute essa manchete: estudo brasileiro reforça hipótese de que vida na Terra veio do espaço”, e Etérea continuava com suas adagas vocabulares: “alguns cientistas defendem a teoria da panspermia, de acordo com a qual a vida pode não ter se originado na Terra e sim, que teria vindo de outro ponto do universo, ou seja, uma forma de vida primordial, que os estudos representam por bactérias, seria resistente a uma viagem interplanetária.” E a aparente apatia com que terminava o discurso, transformava-se na exclamação do seu despertar insone de todas as noites: “Amor, é praticamente uma invasão alienígena!”. Majerofe recordou o primeiro encontro dos dois. Ele estava no epicentro do furacão e o frenesi o desfalecia a compassos de um mártir involuntário. Apaixonara-se assim que vira como a universitária citava Baudelaire, falava do espaço e, entre tragadas, aspirava todo o ser do desarmado aborígine que se encantara com o espelho do colonizador. E, vinte anos depois, o cheiro do cigarro continuava, e ele era ainda dominado pela civilização imperialista que o aculturou.

Etérea continuava sua análise forçada de uma madrugada ilógica sobre a origem terrena e, quiçá, sobre a origem da vida e o sentido do cosmo. O marido virou-se e, encarando-a profundamente imaginou no que ele havia se transformado. Onde estaria a chave que trancou seus sentidos e, numa casa de janelas verdes, trancafiou sua loucura solitária? Ele já estava condenado a essa paixão alienada. Ponderava em silêncio que ela só pensava no espaço e ele só exigia duração, tal como a música que tocou na valsa de casamento: catavento e girassol, os opostos que iam ao sumidouro de um cotidiano agora dividido.

“Determinadas bactérias, em determinadas condições, poderiam sobreviver a uma aventura espacial dessa natureza”, acrescentava Etérea e, o meia-idade petrificado ao seu lado imaginava que a Deinococcus radiodurans, a espécie em questão, explicava a origem de sua esposa. Agora estava tudo claro. A teoria da paspermia esclarecia a ancestral alienígena que ele convivia nas bodas de porcelana dos vintes anos passados com uma estrangeira planetária.

 Majerofe a via como o único ser capaz de suportar as extremas condições de uma viagem dessas pelo universo. E como era revigorante imaginá-la como uma bactéria. Cala-te, seu ser microscópico, aceite sua invisibilidade, gritava a plenos pulmões de sua epifania gladiadora. “Querido, que interessante essa pesquisa, não é mesmo?”, questionava Etérea ao marido quando, na realidade, confirmava a si mesma mais uma descoberta para as suas divagações leigas de uma leitora esclarecida. Na verdade, uma déspota, pensava o homem ao seu lado e, enquanto adormecia, seu semblante tornava-se calmo com os dizeres sonolentos que saíam levemente de sua boca: uma bactéria tirana.

  Etérea e Majerofe representaram para mim como a convivência humana é conflitante. Enquanto um grita em silêncio, o outro se ensurdece nas próprias conclusões, sem se importar na realidade com a crise alheia, que em um casamento, é conjunta. Imaginei o marido em enlace constante com o universo de si mesmo e em busca da dúvida perene: de onde viemos?

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s