As mortes física e moral do orelhão

Por Nathan Lopes

No início da década de 1980, o comercial que chamava a atenção na televisão era da Telesp, antiga companhia estatal de telefonia de São Paulo, que hoje é a privada Telefonica. Nele, um orelhão moribundo começava a cair, dando seus últimos sinais até que a linha fosse cortada para sempre, quando ficou espatifado e despedaçado na calçada. Era uma propaganda para combater o vandalismo nos telefones públicos e conscientizar a população sobre a importância dos mesmos. Diz a locutora, que, a cada dia, vinte deles eram depredados.

Naquela época, isso era motivo de extrema preocupação na sociedade. Primeiro, para quem possa achar incrível, não existia um aparelho quase que vital atualmente: o celular. Se você quisesse se comunicar fora de casa, somente através dos orelhões. Segundo, mesmo em sua residência, a probabilidade de que nela houvesse um telefone fixo era praticamente nula. O custo de uma linha era muito alto para a que a rede de telefonia atingisse grande parte das moradias, como na metade final da década de 1990. Por isso, era comum ver filas nos orelhões da cidade. Aliás, geralmente elas eram causadas por pessoas como o Zé da Galera, personagem de Jô Soares em seu “Viva o Gordo”.

O orelhão era um objeto importante na paisagem das cidades. Que o diga Itu. Lá, ele é ponto turístico. Sua cúpula laranja em forma de orelha, com o desenho de três telefones formando um triângulo – em uma imagem que lembra um rosto com olhos grandes e lábios tristes -, tem o tamanho original multiplicado, como tudo na cidade. Sem contar a base vermelha do telefone. Esta que, para permitir uma ligação, pedia uma ficha. E às vezes ela demorava para cair. Quando isto finalmente acontecia, logo se explicava para quem estava na fila, esperando para fazer a ligação: “caiu a ficha”, expressão que hoje não faz sentido algum, caso se esqueça a época em que surgiu.

https://espelhosp.files.wordpress.com/2010/09/itu2.jpg?w=300

Foto: http://1.bp.blogspot.com/ - O orelhão de Itu também assumiu as cores da Telefonica

Hoje, os orelhões não são mais laranjas e, ao invés do trio telefônico, ganhou a inscrição “Telefonica”. Para funcionar, usa-se cartão, não ficha. Eles mudaram, assim como o tempo, o qual lhes deu uma espécie de aposentadoria em atividade. É que eles ainda são necessários. Tem dia em que o celular teima em não achar o sinal e lá se vai ao esquecido telefone público. E sempre ligando a cobrar, afinal não tem sentido comprar o cartão. Quando vai usá-lo – o cartão e o orelhão – de novo? Naquela propaganda, o orelhão morria, pois alguns o depredavam.

Agora, ele corre o risco de perder seu emprego principal e mudar de profissão. Tudo por causa dos adesivos com anúncios de prostituição colados em praticamente toda sua área. O orelhão pode virar mural, o “mural do sexo”. Seria a morte moral daquilo que tanto ajudou as pessoas a falarem umas com as outras.

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