Jornalismo com literatura

Por Flávia Leal

O jornalismo e a literatura estão cada vez mais interligados. Os dois caminham juntos desde muito antes do termo “new journalism” aparecer como conceito e entre as páginas de autores do século XX. A labuta em periódicos, de escritores que marcaram época, é mais antiga.

Em meados do século XVIII, conhecido como o período das luzes, o liberalismo econômico e a revolução francesa mudavam as concepções da sociedade e a burguesia subia ao antigo trono do monarca, tornando-se então a detentora do poder político. Liberdade, igualdade, fraternidade, essa tríplice não foi de todo sucesso e teve um tempo limitado, porém a nova classe emergente atendeu a uma necessidade feita pela outra revolução, a Industrial: o desenvolvimento da imprensa.

As novas tecnologias proporcionaram o aumento dos periódicos e a quantidade de informação, fazendo com que no século posterior surgissem escritores que escrevessem para jornais como o francês Honoré de Balzac, autor do clássico “A comédia humana” e Émile Zola, considerado o precursor do naturalismo com o livro que o consagrou, “O Germinal”. Críticos e polêmicos tentavam traçar um panorama da realidade humana. Para isso, uniram a observação e o contato com os personagens verdadeiros que conheciam no cotidiano, aliando o trabalho de jornalista com o talento de escritor.

No Brasil, Machado de Assis ficou conhecido como um múltiplo autor dentro das redações de jornais, como nos periódicos “Diário do Rio de Janeiro” e “Marmota Fluminense”. Lima Barreto, em seu romance “Recordações do escrivão Isaias Caminha”, usou como personagem principal do livro um repórter, considerado o seu alter-ego. Outra figura chave é o dândi carioca, aquele que recebeu a alcunha de primeiro repórter investigativo no Brasil: João do Rio. Com o faro jornalístico do “A alma encantadora das ruas” ele escreveu com oscilações entre crônica e reportagem.           

O jornalismo literário aparecia, diminuindo a fronteira entre o jornalista e o escritor. O norte-americano Truman Capote sintetizou essa união com o livro “A sangue frio” considerado o primeiro romance de “não-ficção”, em que fatos reais são misturados à liberdade da imaginação literária. O termo novo-jornalismo foi então consolidado.

Gay Talese com o seu livro sobre a história do jornal The New York Times, “O reino e o poder”, escreveu uma extensa reportagem utilizando a técnica do romance. Ao analisar o periódico americano mais lido dentro dos EUA e uma das maiores potências em termos de informação, e ter usado a forma literária de escrever, Talese pôs fim às dúvidas anteriores sobre a eficácia e a permanência do jornalista que é ao mesmo tempo literato.

A revista brasileira “Realidade” dava espaço a jornalistas, que também eram escritores ou vice-versa, a fazerem história com o jornalismo literário. Eles vivenciavam a experiência como repórteres e personificavam o homem atrás da máquina de escrever da época.

Àqueles que foram dados como iniciantes no processo de aproximação entre as letras imaginadas com as relatadas, o cânone é universal. Os que vieram depois ajudaram a confirmar que a forma não é ultrapassada ou indica um determinado período histórico. Jornalismo literário representa o novo. Perfis, ensaios, conto-reportagem, romance sem ficção, aparecem cada vez mais em jornais e revistas especializadas.

O jornalista tem a oportunidade de escrever para reportar, mas também para criar. A literatura chega a diversos veículos de informação. Num país em que o número de leitores é baixo, a aproximação entre ficção e realidade nos periódicos faz com que mais pessoas se interessem pela arte da escrita literária. Novos escritores nas redações, já.

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