A primeira malária não se esquece

 Por Flávia Leal

Quantificar é reduzir, é mortalizar mais rápido. A chegada é para todos, então para quê recordar? Para mim também chegará, papa. A areia que aqui se eleva é o nosso alimento d’alma. A criança passou ao acolá com menos de uma década de existência, precisavam de um canarinho no céu das respostas. “Estou pronto para o fim desta parada”, disse o papa que esperava o próximo trem.

Começo o post de hoje com uma dramatização fictícia nas aspas, mas real no conteúdo das histórias que ouvi da maioria dos moçambicanos com os quais conversei. A malária é uma presença constante e factual, dificilmente alguém que lá vive consegue passar ileso. Comigo não foi diferente. Apesar do pouco tempo no país, aproximadamente um mês, ao final da viagem o resultado no papel: uma cruz indicava que a tal do mosquito-fêmea havia feito seu trabalho em meu sangue. Como descobri a doença logo no começo, não sofri grandes consequências. Tomei os remédios devidos e fiquei três dias de repouso, com poucas febres, mas um cansaço frequente. Logo depois de terminar com os medicamentos, já voltava a minha rotina de entrevistas e visitas às famílias em Vanduzi, pequena cidade próxima a Chimoio, capital da província de Manica.

Entretanto, eu sou jovem, saudável e tive a vida toda uma boa alimentação, moradia e assistência dos pais, o que deixou meu organismo protegido. A realidade africana é outra. Conheci senhoras que acordam às quatro da manhã e começam seu trabalho na machamba (nome dado às roças) e lavram até tarde, além de cuidar dos filhos e da casa. Com malária, sem malária, a rotina é a mesma. Descansar para se recuperar e curar da doença é luxo para os moçambicanos, principalmente os que moram nas vilas rurais, onde quase sempre não há hospitais, postos de saúde e remédios.

A malária é transmitida pela picada de mosquitos fêmeas do gênero Anopheles. Normalmente descobre-se a doença após cinco dias da picada. Eu passei repelente todos os dias, evitei usar blusas de manga curta, mas não teve jeito. Como disse um amigo meu moçambicano quando soube: agora sim, bem vinda ao país! O comentário tem um tom irônico e uma leitura trágica, mas é uma cruel realidade que os moçambicanos passam. Conversei com um taxista certa vez e perguntei, na minha ignorância acerca do assunto, se ele já havia contraído a doença. Ele olhou e disse: Xé! (expressão largamente usada), já tive muitas, todos aqui tem, sem exceção.

A situação é realmente alarmante e urgente. Fui num hospital público, pois era o único que tinha em Vanduzi e vi muitas pessoas, com toda a ênfase possível aqui, que estavam aguardando para saber o que já esperavam: uma, duas, três e, o mais preocupante, quatro cruzes em seus testes. Essas cruzes indicam o estágio da doença, uma, diz que ela está fraca, a partir daí, progressivamente, a doença piora. Eu tive apenas uma cruz e já tive que ficar três dias de cama. Imagina quem tem quatro e precisa trabalhar mesmo assim… O que não é nada raro de acontecer em Moçambique.

É um absurdo que pessoas morram por malária num mundo dito tão moderno. E como morrem dessa doença na África! Aposto que nesse momento muita gente lá em Moçambique está agonizando por isso. Claro, é uma doença de “país pobre”, não “civilizado”, por isso não há o menor interesse em combatê-la pelos “países ricos”, já que em suas realidades vazias não há a menor vontade de olhar o outro, ainda mais quando toca na ferida do discurso pós-colonialista.

Há pessoas que morrem três dias após a picada do mosquito. Há quem sofra por semanas para se recuperar. Há os que se curam e, logo em seguida, contraem novamente através de uma nova picada. O mais triste é o desinteresse e a falta de conhecimento, inclusive dos brasileiros. Muitos me perguntaram se malária é contagiosa, se eu não havia tomado vacina contra… Em primeiro lugar, não há vacina contra a doença ainda. Em segundo, não é contagiosa. E terceiro, logo depois do descanso e remédios devidamente tomados, você está totalmente curado. Só que digo aqui, mais uma vez, sou uma privilegiada por ter tido apoio, tomar os remédios certos e descansar. Já estou curada da doença há dias e sem a menor probabilidade de outro mosquito me picar em São Paulo. Crianças, mulheres, homens, deficientes, idosos, grávidas, a maioria dos moçambicanos não tem a mesma sorte que eu tive e estão passando por esse calvário cotidiano que continua a ser esquecido e ignorado pelos outros, por nós mesmos, os “privilegiados”.

6 Comentários

Arquivado em Cidades

6 Respostas para “A primeira malária não se esquece

  1. Mariana

    oi flavia!
    mto legal seu texto!!
    quero ver mais fotos!!

  2. Ana Paula

    Flávia,
    que legal saber que o seu sonho de ir à África se concretizou!!!
    Adorei os textos!!
    bjao!!!

  3. Priscila

    Hey Flá!
    Que realidade triste. Certamente foi uma viagem marcante para você.
    Gostei muito do seu modo de escrever. Consigo imaginar a tua voz lendo o texto.
    =D
    Beijo.

  4. Paulo Silva

    Eae Flavia vim de curiosidade..srsr
    parabens pela viagem e textos..!
    abraço.

  5. Obrigada pelos comentários. Abração. Flávia Leal.

  6. paula

    Ola,mei irmao esteve em Luanda e logo que chegou a Luanda foi picado pelo insevto e contraiu a Malaria,Bemvindo a Africa.Foi bem medicado esta a fazer medicação ,descançar e nao é contagiosa.Esta bem e recomenda-se.abraço

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