Comunicação em Moçambique

Por Flávia Leal

Um dos maiores impactos ao chegar a Moçambique foi à adaptação a um novo tipo de comunicação. O primeiro, sentido logo quando desci no aeroporto em Beira – segunda maior cidade do país –, consistiu nas dificuldades de entendimento em relação ao meu português falado no Brasil e o português do local, ora com origem no de Portugal, ora com palavras incorporadas de outras línguas, como o anglicismo presente e a influência das línguas locais. O moçambicano é poliglota por natureza, não apenas pelas consequências da colonização, mas também pelas variedades dos idiomas, os chamados mais comumente, de forma a meu ver depreciativa, de “dialetos”. 

Os moçambicanos andam quilômetros de uma cidade a outra, seja para estudar, trabalhar ou ir a um posto de saúde

 Na província (como é chamada a divisão dos estados) de Sofala, onde Beira é capital, as etnias sena e ndau são as mais representativas. Beira já foi considerada a cidade cultural do país – possível verificar no livro “Vivências Moçambicanas”, do escritor Fernando Couto, pai do Mia Couto, o nome mais conhecido da literatura de Moçambique –, mas hoje a realidade é outra. Há poucos museus, para ser mais exata, praticamente não há museus, e a intelectualidade e universidades encontram-se majoritariamente em Maputo, capital ao sul do país. Entretanto, a cidade é permeada por um charme único, que mescla resquícios da arquitetura portuguesa e a beleza natural de uma cidade litorânea.

Voltando à questão linguística, – sobre os aspectos mais marcadamente sociais entrarei em detalhes nos posts seguintes, pela série que aqui começa no espelhosp sobre a minha viagem a Moçambique – pude perceber que no país é presente a riquíssima tradição oral, seja através de histórias que vão sendo contadas de geração a geração pelas famílias, seja no próprio cotidiano do moçambicano. A exemplo disso, enquanto algumas mulheres vendiam capulanas – panos artesanais coloridos que as adornam, usados como saias – elas conversavam sobre o dia, sobre os maridos, os filhos, relembravam uma chacota ou outra da vizinha, partilhavam as dificuldades, contavam o que ouviram do primo distante que chegara e, assim, construíam verdadeiras narrativas orais.

O rádio é o principal meio de comunicação do país e, tal como um “tambor tribal”, as pessoas se reúnem para ouvi-lo não pelo instrumento em si, mas pela companhia uma das outras, como um evento social. Entretanto, o corriqueiro é a transmissão de informações “boca a boca”, de uma pessoa que repassa a outra aquilo que viu ou ouviu. Relembrando as teorias da comunicação, deixo aqui uma reflexão, ainda sem resposta e que gostaria muito de trocar ideias com quem se interessar: em qual situação é mais dominante a aceitação das mensagens repassadas? Quando esta é feita de maneira interpessoal, tal como predominante em Moçambique, ou quando é feita através do meio de comunicação como o rádio? Seria uma diferença primordial do pensamento existente nessa realidade africana e o outro do “mundo ocidental” digitalizado, muitas vezes não pessoal? E como tal fato influencia na formação de narrativas e da composição da memória individual e coletiva?

Pensei essas questões através do texto de Jesús Martín-Barbero que coloca que as mediações devem ser mais estudadas que o meio, sendo que estas devem incluir diferentes temporalidades e sociabilidades para o entendimento das percepções de diferentes realidades. E pude perceber que a África é um campo excelente para esse tipo de pesquisa.

Voltando às diferenças da língua, vivenciei um fato bem curioso. Para tirar uma foto, um fotógrafo pediu para um grupo de crianças pularem; elas continuaram no mesmo lugar. Ele insistiu e elas não entenderam. Eu, como já estava no país há mais dias e já sabia algumas expressões, disse: crianças, ele pediu para jumpar! E todas, ao mesmo tempo, pularam. O “jumpar” vem do jump e é um anglicismo largamente usado pelo moçambicano. Achei algo muito curioso.

 Termino hoje com um “bem-haja” e convido a seguirem os posts que virão sobre Moçambique.

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