Aprenda “Ah, muleke!” esperando o ônibus

Por Nathan Lopes

O “Pânico na TV” sempre inventa a moda das danças de tempos em tempos. Quem não se lembra da “Dança do Siri”, que gerou até concurso pela internet? A do momento é de autoria do novo integrante do programa, Charles Henrique. Seu “Ah, muleke!” tem conquistado todo tipo de público. Desde crianças e adolescentes nas escolas até presidenciáveis, em atitudes que só acontecem em campanha. O que Charles, com certeza, não esperava era o sucesso do gingado nos pontos de ônibus de São Paulo.

Na espera pela chegada do coletivo, as pessoas começam a se agitar de um lado para o outro. Primeiro, flexionam o joelho direito, deixando o esquerdo estendido. Depois, repetem o movimento, agora ao contrário. E assim o repetem por, no máximo, três vezes. O importante deste bailado é o movimento com a cabeça. Assim que o corpo inclina-se para a esquerda, o pescoço deve ser esticado o máximo possível no mesmo sentido. Como no caso da articulação dos membros inferiores, repete-se a ação para o outro lado. Tudo isso para propiciar uma visão melhor daquilo que não se enxerga: o seu ônibus. É bom notar que, enquanto isso, os braços estão relaxados, colados ao tronco.

Pela demora, as pessoas começam a se impacientar. Percebe-se isso quando elas repetem o “Ah, muleke!”, agora com os braços cruzados e uma expressão fechada no rosto. O desejoso-de-ser-passageiro-muito-brevemente-para-chegar-em-casa já deve estar na plataforma de embarque há, pelo menos, uns vinte minutos. E mais: ao invés de repetir os passos de Charles Henrique por três vezes, o faz por cinco. Ao terminá-los, ele solta um “caramba!” se for alguém que não gosta de falar palavrão.

Quando o dia tem um trânsito complicado, como quase todos em São Paulo, repete-se o segundo estágio do “Ah, muleke!” com algo a mais de ódio e acompanhado por um movimento de indignação dos braços. Este possui várias formas, sendo a mais praticada a qual eles se afastam do corpo, cada um a 45º, e todos os dedos das mãos estão esticados.

A dança só volta a ter um pouco de alegria quando se avista, ao longe, o ônibus. Porém, desta vez, ela é feita com mais rapidez. Apenas uma ida para a esquerda e outra para a direita, já que, neste exato momento, o dançarino viu o tão esperado letreiro e esquece por completo o ritmo do “Ah, muleke!”.

Mas isto não significa que ele não seja lembrado dentro do coletivo. Com a demora para chegar ao destino, o passageiro, no mínimo espaço que possui, repete o gingado das pernas somente com o pescoço; ou, em casos extremos, com a cabeça. A intenção é tentar ver, pelo parabrisa, em que região está e quanto falta para chegar. Como o ônibus, está lotado, pode-se mudar o estágio do “Ah, muleke!” apenas através das expressões da face. A cada minuto que passa, mais o descontentamento fica estampado, cujo término ocorre ao descer em seu destino.

Se você ainda não conhece ou praticou a dança de Charles Henrique, experimente pegar um ônibus, em média, a cada 6 horas. Os melhores horários são 18h, 23h, 7h e 12h. E nem precisa se apressar porque as aulas gratuitas nos pontos e plataformas devem continuar por muito tempo em São Paulo.

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