Diga a Buñuel que tem mais coisas em São Paulo

Apresentador estrangeiro mostra ao público apenas os aspectos negativos da cidade através de generalizações

Por Nathan Lopes

Um ringue de boxe dentro de uma igreja repleta de jovens, a ação de pichadores, a indústria da blindagem de automóveis e a Marcha para Jesus foram as características de São Paulo levantadas pelo programa “Zonas de Guerra”, exibido no último domingo pelo National Geographic.

O título original da atração é bem diferente: “Don’t tell my mother that I am in…”, cuja tradução seria “Não diga a minha mãe que estou em…”. Nesta edição, não era para dizer a ela que David Buñuel estava em São Paulo.

Na abertura do programa, Buñuel lê um texto que está reproduzido na íntegra no site do canal. Ele diz:

Com cerca de 20 milhões de habitantes, São Paulo, no Brasil, é a maior cidade do hemisfério sul e se caracteriza pela contradição. Nela, a cidade mais rica da América Latina, os ricos empresários voam de helicóptero para o trabalho e seus filhos adolescentes saem para ir ao shopping center em seus carros blindados enquanto dois terços da população vivem em residências irregulares e improvisadas, as chamadas favelas, repletas de corrupção e violência.

Ele pode não ter dito mentiras, mas generalizou a cidade em terços. Um rico e dois pobres. Aliás, as condições de vida destes parecem ter sido exageradas negativamente, além da própria quantidade de pessoas em tal situação. São Paulo não tem quase 70% de residentes em favelas; além do mais, o restante dos moradores não vai trabalhar de helicóptero, como dão a entender essas porcentagens para o telespectador. Simplesmente se ignorou a enorme classe média da cidade, a qual não é uma coisa nem outra. Essa classe é tão grande que se pode dividi-la em três: média-baixa, média-média e média-alta. São Paulo se caracteriza pela contradição, sim, mas ela não é tão díspar, como foi colocado por Buñuel.

Para ilustrar a cidade que descreveu, o apresentador foi à igreja do boxe, que fica em uma região pobre. Ele queria mostrar o programa dos jovens paulistanos em um sábado à noite, dando a entender que este era o único. Faltou dizer que se trata apenas de um dos muitos a se fazer por São Paulo.

A igreja é a Renascer, a mesma que promove a Marcha para Jesus. Talvez ele tenha descoberto o movimento nessa visita e aproveitou a manifestação na Avenida Tiradentes para mostrar a quantidade de pessoas que tem seguido a religião evangélica em São Paulo para mostrar a cara de sua sociedade. O ponto positivo é que Buñuel não deixou de lado o imbróglio dos pastores Hernandes com a justiça estadunidense, fato que também dá base para reflexões por parte do telespectador.

Mostrar as empresas de blindagem de veículos seria algo trivial não fosse seu achado em um túnel paulistano. Há um jovem que, à noite, faz “pichações” nas grades amarelas das vias subterrâneas. As aspas são justificadas. Com um pano na mão, ele faz desenhos com a poluição impregnada no ferro. Sua intenção é chamar a atenção de quem passa por ali, já que estes estão no conforto de seus carros, protegidos pela blindagem e, na opinião dele, não dão atenção ao que acontece na cidade, ao mundo exterior. Uma ótima surpresa que o “Zonas de Guerra” trouxe.

Porém, não foi só. Buñuel encontrou o local de reunião dos pichadores em São Paulo. Lá, eles exibem seus traços, fotos de suas pichações para marcar o seu nome na comunidade. Ele seguiu uma dupla de vândalos que iriam agir. Caminhando, eles escolheram o alvo: um prédio na Avenida Rio Branco, próximo à parada de ônibus Caio Prado. Perguntados sobre o que achariam se a casa deles fosse pichada, argumentaram que o espaço é privado da porta para dentro; da porta para fora era público. E que se todas as paredes de São Paulo estivessem pichadas, eles pegariam suas malas e sairiam à procura de mais paredes. A pergunta que fica é: se Buñuel encontrou o ponto de encontro dos pichadores, por que a polícia não faz nada?

O problema do “Zonas de Guerra”, ou “Não diga a minha mãe que estou em…”, começa no título. Por ele, já se supõe que há muita violência na cidade-tema daquela edição. E, na busca por confirmar a tese, buscam-se apenas os aspectos negativos do município. São Paulo realmente tem os problemas abordados, mas possui muitos pontos positivos, os quais passaram bem longe da atração de Buñuel. A questão é que muitos construirão a imagem da maior cidade do país através do “Zonas de Guerra” e decidirão nunca colocar os pés por aqui. Desse jeito, é bom mesmo não dizer à mãe que se está em São Paulo.

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