Um drama!: Jardins

Por Raphael Scire

Estreio hoje aqui no EspelhoSP a seção Um drama!, na qual eu uno o útil ao agradável, a fome à vontade de comer, e passo a escrever mini peças dramáticas para mostrar eventos, acontecimentos, enfim, trivialidades que acontecem todos os dias em São Paulo. Uma maneira que eu encontrei, junto com meus colegas de equipe, que sugeriram e deram o aval para a empreitada, de juntar jornalismo com dramaturgia, duas coisas pelas quais eu sou apaixonado. Espero que gostem. Boa leitura e divirtam-se!

***

Rua Haddock Lobo, nas imediações da Oscar Freire, uma moça passeia, cheia de sacolas de grife, depois de uma tarde de compras. Mariana Cerqueira de Andrade tem 23 anos e faz parte de uma das mais tradicionais famílias paulistanas, àquelas que damos o nome de quatrocentonas. A outra garota em questão é Karina de Lima Dias, amiga de Mariana nos tempos de escola.

Karina reconhece Mariana na rua e sai desesperada gritando o nome da conhecida:

Karina                   – Mari! Mari! Ô, Mari!

Mariana vira-se e, discretamente, abaixa os óculos escuros, numa atitude um pouco blasé.

Mariana               – Não acredito! Karina?

Karina                   – Eu mesma! Quanto tempo que não nos víamos!

As duas se cumprimentam com um beijo.

Mariana               – Pois é, andei sumida mesmo. Morei um tempo na Europa.

Karina                   – Ah é? E o que cê tava fazendo lá?

Mariana               – Terminando os estudos… e você, o que faz aqui?

Karina                   – Nossa, nem fala. Passei o dia inteiro correndo atrás de um monte de dondoca na Oscar Freire para umas entrevistas do meu mestrado, mas nenhuma parou. Você acredita que uma delas teve a pachorra de me falar que tava com pressa e quando eu virei de costas, ela tava lá, olhando uma vitrine, com a maior calma do mundo… ai! também andei feito uma camela atrás de uma outra lá que passeava com o cachorrinho. Gente, deu uma bolha enorme no meu pé.

Enquanto Karina falava, Mariana mexia no celular, sem prestar muita atenção.

Karina                   – Ô, Mari, tá prestando atenção no que eu estou dizendo?

Mariana               – Tô, Tô sim. Mas o seu trabalho é sobre o quê?

Karina                   – Sobre a história dos Jardins, além dos hábitos dos frequentadores da região.

Mariana               – Nossa, eu fiquei passada quando descobri o por quê do bairro dos Jardins ter esse nome…

Karina                   – Ué, não é por causa da arborização do bairro, do fato de ser parecido com um jardim?

Mariana               – Isso era o que eu achava também. Mas o meu avô me contou uma história completamente diferente.

Karina                   – E olha que o seu avô tem propriedade para te contar histórias assim, né?

Mariana               – Pois é, ele foi um dos primeiros moradores do bairro, conhece bem a região. Na verdade, o bairro foi mesmo projetado para ser um imenso jardim, mas até aí o que pouca gente sabe é que os Jardins se chamam Jardins porque, na verdade, são quatro os bairros que fazem parte daquele que a gente acha que é um só.

Karina                   – Ah é? E quais são?

Mariana               – Olha, a gente, por exemplo, está andando na Haddock Lobo, que fica no Jardim Paulistano. Além disso, tem ainda o Jardim América, ali perto do Ibirapuera, o Jardim Europa, entre a Rebouças e a Nove de Julho, e o Jardim Paulista, mais próximo da Paulista e da Brigadeiro Luis Antonio.

Karina                   – Menina, não sabia que você conhecia São Paulo tão bem! Quem te vê por aí, assim, toda patricinha delicada trabalhada nas grifes, não fala que você sabe tanta coisa da cidade.

Mariana               – E quem te via, toda bicho grilo, cabelo ensebado, não imaginaria nunca que você faria um trabalho na Oscar Freire, né? Mas tem mais: não sei se você reparou, mas as ruas dos bairros fazem alusão ao nome deles.

Karina                   – Como assim?

Mariana               – No Jardim América, por exemplo, você encontra a Rua Honduras, a Estados Unidos, a Venezuela…

Karina                   – Ah, por isso que tem a rua Hungria, rua Suécia… então lá é o Jardim Europa.

Mariana               – Isso mesmo. Se você for descendo a Paulista, vai perceber que as ruas ganharam nomes de cidades do interior e do litoral do estado.

Karina                   – Faz sentido. Alameda Santos, Alameda Lorena… mas peraí: e o Jardim Paulistano?

Mariana               – O Jardim Paulistano presta uma homenagem a pessoas que nasceram em São Paulo ou tiveram destaque por aqui. É o caso da Alameda Gabriel Monteiro da Silva, e até mesmo da Oscar Freire.

Karina                   – Eu sei que ele era baiano…

Mariana               – Sim, mas ele fez carreira aqui em São Paulo. Querida, não posso ficar muito tempo. Você almoça comigo?

Karina                   – Olha, eu até aceitaria, mas tô completamente sem grana. Só tenho uns trocados pra um cachorro quente na Augusta, e lá do outro lado, no Centrão…

Mariana               – Ih, deixa disso. Eu pago! Já que a gente tá nessa vibe de falar dos Jardins, bem que a gente podia comer num daqueles restaurantes maravilhosos do bairro, né?

Mariana               – Boa idéia. E que tal tomar um café na Alameda Franca, hein?

Karina                   – Ah, eu topo!

Mariana               – (Acenando com a mão) Táxi!

O táxi para, as duas entram e o carro segue.

Mariana              – Tava aqui reparando, e adorei essa sua blusinha. Tenho uma igual. Comprei na Oscar Freire…

Karina                   -É, nem tão igual assim…

Mariana               – Ué, por quê?

Karina                   – Essa daqui é da Zé Paulino.

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