Tietê: de rio a rodovia

Por Nathan Lopes

As obras de ampliação da Marginal Tietê revelam sua verdadeira identidade. Durante a noite, apenas se consegue enxergar pistas, placas e veículos por causa dos faróis de carros, motos, ônibus e caminhões. Se não fossem eles, o breu seria total. O governo diz que o sistema de iluminação ficará desligado até o final do ano. Enquanto isso, o único sinal de luz vem dos bairros da cidade, os quais mostram que a Marginal não é uma rodovia, mas bem que poderia ser.

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A Marginal Tietê à noite (Foto: http://giramundo.files.wordpress.com/)

Nas faixas locais, a velocidade máxima é de 70 km/h; nas expressas, 90 km/h. Em breve, surgirão outras novas entre elas. Tudo para que não haja atrasos, demoras, lentidão. A razão das obras feitas agora é o grande número de automóveis para o pouco espaço de circulação, cujo resultado são os famosos congestionamentos.

Anos atrás, o problema eram as enchentes. Sempre que chovia, o Rio Tietê transbordava e a Marginal alagada ficava. A solução foi acabar com o que existia de natural no rio. Se havia mato, árvores em seu leito, eles foram substituídos por concreto. O Rio Tietê nada mais é, hoje, do que uma grande canaleta. Não alaga a Marginal, é verdade. Mas também não é mais um rio.

Não se pode parar a Marginal, a rodovia urbana. Este é o pensamento. Caso algo venha a atrapalhá-la, que se o modifique. Foi assim que o rio mudou; foi assim que o seu leito transformou-se em puro asfalto. E a presença da pavimentação, como se atesta agora, só se faz aumentar.

Quando a Marginal surgiu, clubes perderam um pouco de sua gênese. Tietê, Esperia, Corinthians, Portuguesa e tantos outros não estão beirando o rio à toa. O remo, por exemplo, era um dos esportes praticados por seus sócios. Os cidadãos, por sua vez, perderam um programa de lazer. Onde iriam pescar, nadar, passear com os filhos?

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Uma das competições que aconteciam no Rio Tietê (Foto: acervo Esperia)

A cidade perdeu um rio pela velocidade travestida de progresso. Agora, teve o pouco do que restava destruído por um tanto a mais da velocidade perdida pela via ao longo dos anos. Resta saber o que é mais fácil recuperar no futuro: um rio ou uma rodovia.

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