“Todos os caminhos da moda levam a São Paulo”

Por Raphael Scire

 

Andre Rodrigues, editor do Portal FFW - Foto: Gabriel Marchi/Divulgação

A semana de moda de São Paulo (SPFW) acontece duas vezes por ano e o evento é o mais importante do país. A última temporada, encerrada em junho, teve recorde de investimentos, somando mais de R$13 milhões. Para se ter uma ideia, 5 mil empregos são criados a cada edição e cerca de 1500 jornalistas trabalham na cobertura das edições. Os negócios gerados a partir da semana giram em torno de R$1,5 bilhão, direta e indiretamente, segundo dados da Luminosidade, empresa organizadora do SPFW.

Pertencente ao InBrands, um grupo detentor de marcas como Alexandre Herchcovitch e Ellus, a Luminosidade também tem em seu portfólio o Portal FFW, o site que faz a mais completa cobertura do SPFW. Antes conhecido como o site oficial do evento, o SPFW, o Portal FFW (Fashion Forward) ganhou, em dezembro do ano passado, vida própria. Conversamos com o editor chefe deles, o jornalista Andre Rodrigues, sobre a cobertura do FFW, as mudanças pelas quais o portal passou, além de batermos um papo sobre moda e os novos talentos que despontam na área. 

  – Qual é, na sua opinião, a importância de São Paulo para o mercado da moda?

 

Apesar das fábricas não estarem necessariamente em São Paulo, a mão de obra criativa está. Já no Sul do País, no Nordeste e até mesmo no Norte, há as concentrações de manufaturas, onde se desenvolvem os tecidos, novas tecnologias e tudo mais. Só que esses tecidos e essas novas tecnologias partem de pesquisas que são feitas aqui. Eu acho que São Paulo tem na mão o capital intangível da moda. E isso é muito importante. Não temos uma indústria têxtil forte, mas temos em mãos um valor que não tem nem como ser mensurado, uma coisa inestimável. Todas as pessoas que criam moda e que impulsionam o mercado e a indústria estão aqui ou acabam vindo para cá. Todos os caminhos da moda levam a São Paulo, é muito interessante. 

– O que o São Paulo Fashion Week (SPFW) representa no cenário mundial? 

O SPFW, há alguns anos, não representava muito, mas foi feita uma pesquisa no final de 2009, por um instituto online chamado Global Language Monitor, que monitora palavras que são mais pesquisadas na internet em vários segmentos. E na moda, pela primeira vez, o SPFW passou a ser mencionado com mais freqüência e saiu da 32ª posição para a 8ª. São Paulo, em 2009, foi detectada por esse índice como a oitava cidade mais importante da moda no mundo. Ela entrou entre as dez cidades mais importantes. Se você considerar que temos Nova York, Milão, Londres e Paris como as principais quatro, estar em oitavo lugar é muito importante para nós. Existe um interesse da imprensa internacional em saber o que a gente está fazendo aqui, e também das indústrias internacionais. Existe cada vez mais relevância. A partir do SPFW, gerou-se isso. 

– Como é a organização para a cobertura da SPFW, antes da abertura do evento, no Portal FFW?  

Quando termina uma edição e a gente já começa a planejar a outra. Tem sido um ciclo ininterrupto desde que eu entrei aqui, em 2004. A gente não para. Quando termina a edição de janeiro, a gente já está planejando a edição de junho, porque temos acesso ao que vai ser o tema do evento, como vai ser a cenografia, quais exposições de arte que a empresa pretende trazer. A gente sabia, por exemplo, que o Jun Nakao iria fazer uma exposição no SPFW muito antes de ser divulgado. Começamos a planejar a nossa cobertura em função de saber das coisas. Muitos meses antes, a gente já define a equipe, as pautas que queremos fazer, investigamos quais modelos estarão aqui, quais marcas vão desfilar, quais não vão. Tem muita pauta de gaveta. Na temporada, por exemplo, todo dia, eu já tenho duas pautas prontas há meses, e eu solto de manhã e à noite. 

– E vocês podem divulgar essas informações antes?  

Temos o acesso antes, mas por uma questão de ética profissional, não divulgamos antes da nossa assessoria de imprensa definir a estratégia de comunicação. A gente tem um acesso privilegiado porque na mesa de trás as pessoas estão conversando sobre coisas do evento. Eu sei quem vai vir, quem vai patrocinar. Isso poderia ser uma notícia para mim, mas eu não divulgo de forma alguma, a não ser que a assessoria de imprensa permita. Existe uma sinergia entre a assessoria de imprensa, a diretoria e o Portal FFW e a gente se submete a isso. Temos que respeitar, porque senão a gente perde credibilidade, o pessoal olha e diz: “Ah, claro, o cara está lá dentro e já sabe de tudo. Que graça tem dar a notícia em primeira mão?”. 

– Como funciona o trabalho de vocês durante a cobertura? Quantas pessoas há na equipe? 

Érika Palomino, editora de moda - Foto: Reprodução

A gente tem uma equipe fixa que é formada pela Érika Palomino, que é editora de moda, eu, que sou editor chefe, quatro repórteres, e mais uma estagiária. Durante a temporada, a nossa equipe fica muito maior, porque a gente contrata uma agência de fotos, e eles têm lá 15 fotógrafos que passam a fazer parte da nossa equipe e atendem a toda a demanda, desde fazer foto de pauta jornalística mesmo, de Bienal, estilo das pessoas, cenografia, se está acontecendo algum evento num lounge, até passarela. De look de passarela inteiro, detalhe do look, acessório, backstage, foto do estilista. Há também equipe de vídeo, umas 5 pessoas, que que alimentam o nosso site com vídeos na íntegra dos desfiles e vídeos de beleza. Mais uns 3 ou 4 jornalistas que entram para ajudar com conteúdo no site. 

 – Quanto o SFPW consome de vocês? 

Muito! Passa o evento e demora algumas semanas para você voltar ao eixo normal, alimentação, na hora de dormir, você não consegue. É um trabalho exaustivo durante sete dias. Quando você entra no ritmo, você vai. A hora que para é como se fosse um jet leg. A gente demora um tempo para se ajustar a horário, para até retomar a velocidade de geração de conteúdo, porque são sete dias que eu passo, por exemplo, ser ler o meu Google Reader, que é de onde eu pego a maioria das pautas. Sete dias sem ler o Google Reader são mais de 10 mil notícias que eu perdi. Aí tem que reavaliar tudo o que eu perdi, ver o que ainda dá para usar e aí pegar o ritmo de novo. 

– Como é a coordenação da cobertura? 

 Tudo o que é de moda é a Érika quem faz a edição. É ela que escolhe a foto que vai estar na home do desfile, aprova uma crítica que foi feita, define tudo o que é relativo à moda no site, durante e fora do evento. Como ela não é uma figura presente aqui na redação, por motivos contratuais, ela é uma consultora, só vem uma vez por semana, ela acaba me transmitindo muito dessas funções. Tem muitas vezes que eu escolho, mas sempre sob curadoria dela. Eu defino fotos, chamadas, mas sempre buscando a aprovação dela. Ela é a editora de moda do site. 

– Você fica mais responsável pelo conteúdo e só… 

Exato. E como ela, durante o evento, faz o SPFWJournal, ela não tem tempo de ter uma proximidade muito grande com a equipe, e eu fico responsável pela coordenação, desde horário, quem está almoçando quem não está, a que horas que a pessoa vai voltar, se ela tem que sair mais cedo, se ela entregou as pautas, se a pauta está legal, se a foto está correta, se ele está no desfile que ele tem de estar. E eu também faço o conteúdo, as matérias e resenhas de desfile, matérias de backstage. Faço de tudo um pouco, mas a coordenação da equipe é o mais forte. 

– Qual é o principal concorrente do Portal FFW? 

É difícil falar, não porque eu não quero me comprometer, mas porque o tipo de conteúdo que a gente tem, nenhum outro site tem. Eu poderia pontuar: o Chic, por exemplo, é um site que busca um conteúdo próximo do nosso e eu acho que só eles, porque eles têm um acervo muito grande de foto de desfile, fazem análise crítica, como a gente também faz. Eles têm uma editora de moda que é uma figura conhecida, a Glória Kalil, assim como a gente tem a Érika, e a abordagem das pautas também é muito próxima. A gente tem um perfil um pouco parecido, buscamos o mesmo internauta, em alguns momentos, porque eles fazem coisas de etiqueta, que a gente não faz. Mas quando eles fazem moda, fazem muito próximo da gente. É difícil falar de competição porque no nosso site você tem todas as fotos de passarela de um desfile, e você também tem foto de um detalhe das roupas. O Chic já não tem isso. 

– Vocês têm acesso mais fácil às modelos ou isso depende mais do estilista? 

Não necessariamente. Depende muito de cada marca. A gente tem muito acesso ao Alexandre Herchcovitch por uma construção de uma relação. Ele gosta da equipe, a equipe gosta dele, a gente acaba conversando muito ao longo do ano e quando chega a época do desfile, muita gente tem dificuldade de chegar até ele e nós, não. E, ao contrário, tem estilistas que são extremamente fáceis, novatos, que precisam de visibilidade. Mas tem aqueles também que a gente tem dificuldade de chegar até eles, porque a assessoria de imprensa não deixa entrar. 

– E como vocês driblam esses percalços? 

A gente tenta ir, depois do desfile, falar com o estilista, fazer a beleza, mas às vezes se perde. Aí é uma questão de se posicionar. Existe uma coisa: as pessoas acham que somos o veículo oficial do evento, porque éramos mesmo até um ano atrás. A gente era o site do SPFW. Quando mudou a marca, começamos um trabalho para mudar a cabeça do mercado e das pessoas que o FFW não é o site oficial do evento. Ele abriga o site oficial do evento, onde tem o calendário atualizado, informações para a imprensa, o mapa da Bienal. É um hot site dentro do nosso. O FFW é um veículo editorialmente desvinculado da Luminosidade. A gente tem vida própria, opinião própria, criticamos as marcas que desfilam no evento que a nossa empresa produz. Muita gente, inclusive nessa temporada, ficou surpresa com isso. O site foi lançado em dezembro de 2009 e em janeiro ainda não tinha muita força. As pessoas não prestaram muita atenção. Mas agora, no meio do ano, elas prestaram e muita gente ficou até assustada: “Como assim o site tá criticando o desfile da Gloria Coelho?”. Isso deu um grande rebuliço, foi muito comentado. Só que o que a gente quer, agora, é reforçar que o FFW não é um veículo oficial. Eu posso criticar uma marca que está no evento, eu posso criticar, inclusive, uma marca que faz parte do nosso grupo. A Luminosidade pertence a um grupo chamado InBrands, dono da marca do Alexandre Herchcovitch, por exemplo. Em teoria, somos empresas que pertencem a um mesmo grupo, mas se o Alexandre fizer um desfile ruim, a gente vai criticar. Se ele cometer algum deslize, a gente vai noticiar. Existe uma isenção editorial que as pessoas ainda não entenderam. 

– Você se indignou no Twitter por causa de pessoas que “roubaram” o conteúdo do site e não creditaram. Como vocês do FFW passaram a lidar com a proteção do conteúdo? 

É muito difícil porque a gente usa foto que a gente pega no Google, mas tentamos, sempre, creditar a foto. Nem sempre a gente consegue. Eu acho que o problema, no nosso caso, foi a não moderação do uso. Quando eu comecei a reclamar foi porque o site que pegou, reproduziu na íntegra o que a gente publicou no FFW. Se você entrar no site dos caras, você vai ver na seção de moda todas as fotos de todos os desfiles do SPFW que foram reproduzidas do nosso site. E eu tenho um problema muito grande, porque essas fotos são de uma agência terceirizada. Aquele conteúdo é nosso a partir do momento em que compramos. Se a pessoa está reconstruindo o nosso conteúdo, eu não me importo. Eu acredito na construção, não na reprodução. O cara reproduziu, pegou as fotos, copiou e colou. E fez isso também com os nossos textos. 

– Mas não chegou nem a dar crédito? 

Nada, nada. Tinha o meu texto reproduzido ipsis literis, do começo ao fim, como se fosse do site deles. Todo esse conteúdo foi reproduzido e isso me incomodou muito. Eu acho a reprodução muito preguiçosa. É uma discussão editorial que eu já tive com a minha equipe e que a gente tenta caminhar por esse lado. Todas as matérias que são reprodução de conteúdo de fora, ou de terceiros, a gente cita a fonte e põe o link.

– Com relação às outras semanas de moda no mundo, vocês têm cobertura in loco ou não? 

Tem duas cidades que a gente se desloca para cobrir, que são Nova York e Paris. Em Milão e Londres, a gente tem colaboradores. A gente vai para aquelas duas cidades por uma questão de facilidade. O site ainda não tem força comercial, não tem dinheiro para todo mundo viajar. Em Nova York e em Paris, a gente consegue acordos, trocar conteúdo, fazer permuta, um anúncio no nosso site em troca de estadia em algum hotel. Agora Milão e Londres, a gente ainda não conseguiu. Temos uma jornalista em Milão e um jornalista em Londres que fazem a cobertura da semana, mas a gente cobre as quatro in loco

 

O estilista Alexandre Herchcovitch. Para Andre, ele é “matricial na moda” – Foto: Reprodução

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

  – Quais nomes aqui de São Paulo você destacaria para a moda brasileira?

 

 Falar do Alexandre (Herchcovitch) é chover no molhado. Ele é matricial para a moda. Eu costumo brincar com a minha equipe que o Alexandre é o novo estilista brasileiro há 20 anos. Ele achou uma fórmula para fazer as coisas, tem uma equipe muito forte de criação, comandada pelo Maurício Ianês, que é um gênio. É uma conjunção que o Alexandre encontrou e que muitos não encontraram. Você tem as grandes marcas, mas não tem nenhum outro estilista que achou essa fórmula. Agora, tem uma galera nova que chegou a São Paulo que eu acho incrível. Uma delas é a Fernanda Yamamoto, que estreou agora no SPFW e é sensacional. Tem o João Pimenta, um menino que não é de São Paulo, mas está aqui, e é sensacional também. Eu acho que ele ainda tem um caminho brilhante pela frente. A dupla da Neon, o Dudu (Bertholini) e a Rita (Comparato), que sempre causa muito frisson com o desfile e acabam gerando muita mídia em torno da marca, um sucesso comercial por causa disso. E tem o Danilo Costa, que desfila no Projeto Lab da Casa de Criadores, um desfile de 3 looks, porque não tem apoio nem nada, mas ele tem talento, e tem uma coreana, Yoon Hee Lee, que desfila na Casa de Criadores. Eu acho que esses são nomes dos quais a gente vai ouvir muito ainda.

 

– Qual é o balanço que você faz da última SPFW? 

Eu acho que foi super positivo. A moda está num momento de refletir o mundo em que vivemos. Na verdade, ela é um reflexo do mundo que a gente vive, e não o contrário. A moda está muito madura. A maioria dos estilistas já entende que eles precisam fazer roupa para as pessoas usarem. 

– Pontos de destaque? 

A moda masculina, de uma forma geral, foi destaque. Todas as marcas masculinas caminharam para o mesmo caminho, que é um homem menos masculino, um homem agressivo, erótico. É o homem que se mostra, que mostra a pele, que usa decote. E eles acabaram gerando um movimento que eles nem perceberam, que são roupas masculinas que as mulheres também vão usar, não porque elas sejam roupas femininas, mas porque a mulher consegue adaptar. É uma moda masculina adaptável, que dialoga com o mundo de hoje, que é um mundo mais liberal, menos careta. E o Brasil. O tema mais forte também foi o nacionalismo, não sei se por causa da Copa, mas rolou um movimento de falar de Brasil, de se inspirar nas danças típicas do Nordeste, no folclore, nas cores da natureza brasileira. Olhar para o Brasil e traduzir isso na passarela, na silhueta, nas cores, nas estampas. 

– Alguma novidade na cobertura do FFW para a próxima temporada? 

A gente pretende aprimorar a nossa seção de desfiles, para melhorar a navegação dos internautas, facilitar o acesso a todo tipo de conteúdo que a gente tem. Aí entra o Twitter, que é incrível na nossa vida, porque eu não preciso me preocupar em fazer uma manchete na home do site. Soltou no Twitter, mata, porque todo mundo já vê, e o clique já leva para o conteúdo.

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