De bem com o corpo

Por Raphael Scire

Armar-se de bom humor foi a maneira encontrada pela atriz Fabiana Karla, de 34 anos, para afastar de si o preconceito por sempre ter sido gordinha. Na verdade, ela própria diz que nunca passou por situações constrangedoras e que, no quesito relações amorosas, costuma se dar muito bem. “Sempre tive namorados muito bonitos, modéstia à parte”, diverte-se.

“Em cartaz em São Paulo com a peça Gorda, Fabiana vive Helena, uma bibliotecária que engata um relacionamento com Tony, um homem cujas atitudes estão sempre pautadas pelo olhar da sociedade – carregado, sempre, de preconceito contra as minorias. A relação dos dois tem de passar pelo crivo dos amigos dele e expõe de forma ácida a maneira como os gordos (e também outras minorias, como os gays e os mais velhos, por exemplo) são vistos pelos outros. “É uma peça transformadora, que alfineta as pessoas”, define ela.

 Fabiana, assim como sua personagem na peça, diz que sempre lançou mão de piadas sobre si mesma como forma de defesa. “Fiz isso a vida inteira. Eu sempre me protegi muito por meio das minhas brincadeiras”, conta. O fato de ter sempre brincado com a situação, antes mesmo que alguém fizesse a primeira piada, lhe ajudou a exercitar a sua veia cômica. “Foi um ótimo exercício para a minha comédia.” Ela pondera que as brincadeiras que fazia não eram depreciativas e também que sempre tomou o cuidado para não ofender nem constranger quem estivesse ao seu redor.

Arma inteligente. Para a atriz, uma das melhores formas para lidar com o preconceito é fazer uso da inteligência. “É muito chato você ser didático, não tem fórmula para você explicar para as pessoas o que está errado. Quem vai dizer o que está errado?”, questiona.

Segundo Fabiana, homens são mais grosseiros que as mulheres na hora de demonstrarem o que pensam quando se referem aos gordos. “O homem é mais largado, não mede o que fala entre os amigos. É da natureza dele.” Porém, faz questão de salientar que nunca foi hostilizada pelo fato de ser gorda. E admite que a fama pode ser uma “blindagem” contra isso. “O fato de ser famosa pode, sim, ter afastado o preconceito.”

Hoje, Fabiana verifica uma mudança no comportamento das pessoas quando se trata de relacionamentos. “Elas começam a perceber que existe mais do que o físico.” Notou que muitas relações deixaram de ser pautadas pela ditadura da beleza e pelo culto ao corpo perfeito, e voltaram-se para o que as pessoas são internamente e para o que têm para oferecer aos outros.

A própria peça, que provoca uma reflexão sobre como a sociedade lida com os gordos, é uma maneira que Fabiana encontrou para contribuir para a aceitação dos gordinhos. “A partir do momento em que você se observa e se ama mais, você passa a fazer coisas que são importantes para a sua vida.” Cita o convívio com pessoas que ama, sobretudo a família, como algo essencial para fazer com que as pessoas se sintam bem com elas mesmas.

 Levantando a bandeira do bem-estar e da felicidade, Fabiana leva sua mensagem para todos de forma alegre e bem humorada, combatendo, assim, as crenças preconceituosas que ainda existem na sociedade, ainda que camufladas em pequenos olhares e bocas tortas. “Uma pessoa esclarecida não vai ter tanto preconceito”, acredita.

Protagonista. O convite para participar de Gorda pegou a atriz de surpresa. Em 2008, quando estava de férias na Argentina, ela se deparou com o cartaz do espetáculo em Buenos Aires. O título foi o que mais chamou a sua atenção. Como já estava com a viagem de volta marcada, ela não conseguiu assistir à montagem portenha. Voltou para cá decidida a comprar os direitos autorais e produzir a peça.

Para sua surpresa, no entanto, os direitos já haviam sido adquiridos. Outros trabalhos foram surgindo até que Fabiana recebeu o telefonema de uma das produtoras da peça, convidando-a para ser a protagonista. “Eles me perceberam”, conta.

Surpreendente em cena, Fabiana mostra uma faceta menos humorística, diferentemente do que o grande público conhece. “Estou me descobrindo nessa fase mais dramática e estou adorando”, fala. Para tanto, ela teve de mergulhar de cabeça no papel de Helena.

No palco, Fabiana aparece vestida de lingerie e de maiô, e tal fato teve de ser muito bem trabalhado por ela mesma. “Eu não podia ter preconceito contra o meu corpo. Caso contrário, não poderia tratar do assunto no palco.” O apoio do diretor Daniel Veronese e do restante do elenco foi fundamental para que ela construísse a personagem da maneira mais corajosa possível.

Projeto fashion. Fabiana ficava aborrecida quando não encontrava roupas para o seu tamanho. “Sou muito vaidosa e, quando não achava o que queria, me sentia muito incomodada”, confessa. Hoje, porém, diz que tal situação mudou, pois, sempre que precisa, recorre a costureiras, e também aprendeu a lidar com o próprio corpo. “Eu já tive 60 quilos e, naquela época, não tinha a maturidade que tenho agora. Hoje sei o que eu posso usar a meu favor”, comemora.

O seu grande sonho é criar uma grife de roupas para as mais cheinhas, para que outras mulheres não passem pelas mesmas situações que passou. O ritmo acelerado dos trabalhos e o acúmulo de tarefas, porém, fazem com que a atriz tenha de adiar um pouco a realização do projeto de moda. “Não tive tempo para me dedicar a essa grife, mas a vontade (de criá-la) é enorme.”

Mãe de três filhos – de 10, 11 e 12 anos -, divide-se entre a atenção aos pequenos, a peça em cartaz e as gravações do programa humorístico Zorra Total, da Rede Globo, além de eventuais trabalhos no cinema, como a participação no novo filme do ator e diretor Selton Mello, O Palhaço. Com tanta coisa para fazer, a vida amorosa acabou ficando um pouco de lado. “Meu namorado, agora, é o meu trabalho”, brinca.

Vida dedicada ao riso

A atriz Fabiana Karla é conhecida do grande público pelos papéis de destaque que já interpretou na telinha. Começou como a empregada Célia, em Mulheres Apaixonadas (2003), novela da Rede Globo. O jeito engraçado e cativante da doméstica fofoqueira a ajudou a conquistar um espaço maior na emissora.

Naquele mesmo ano, passou a ocupar o quadro fixo de humoristas do programa Zorra Total. Entre as personagens mais famosas, estão a personal trainer para novos ricos, Gislaine, cujo bordão “isso não te pertence mais” caiu rapidamente na boca do povo, e a nutricionista Dra. Lorca, que diz o que seus pacientes podem e não podem comer.

No teatro, atuou nas peças Hoje Me Chamo Dinorá (2008), na qual dividiu o palco com a veterana Laura Cardoso, e Balaio de Gatos (2009). No cinema, mostrou o seu talento em A Máquina (2006), de João Falcão, e na adaptação da peça Trair e Coçar é Só Começar (2006). Em todas as produções , a faceta humorística deu o tom à sua atuação e mostrou o que Fabiana sabe fazer de melhor: levantar o astral.

Reportagem originalmente publicada no Suplemento Feminino do jornal O Estado de São Paulo

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