Porta fechada

Por Nathan Lopes

Nem sempre é um problema mecânico que, por exemplo, faz as portas de um trem da CPTM não abrirem. O “SPTV 2ª edição” da última sexta-feira [veja aqui] mostrou o que estava acontecendo há duas semanas na estação Guaianazes. Quando a composição chegava na plataforma, quem estava dentro não conseguia sair por uma determinada porta; e quem estava fora, entrar. Dois jovens bloqueavam o mecanismo de abertura com uma ferramenta para evitar que o vagão ficasse lotado. Segundo reportagem de Carla Modena e Marcos Politi, a dupla só permitia a abertura das portas no Brás, cinco estações depois. Eles foram levados para a delegacia e poderão responder por crime contra o patrimônio público apenas se for comprovado pela perícia algum dano no trem.

A ferramenta que bloqueava a porta do vagão (Reprodução - TV Globo)

Se observarmos a atitude deles apenas do ponto de vista da ética e da moral dentro de uma sociedade, não resta dúvida de que ela está errada. Mas podemos tentar compreendê-la através do dia a dia deles, no qual vagões estão sempre lotados, a viagem até o destino demora. Enfim, tudo que contribui para ficarem estressados logo pela manhã, quando praticavam tal ação. Talvez por não suportarem ver essa cena diariamente, tenham decidido impedir a abertura das portas. E talvez por gostarem disso, os passageiros de dentro de vagão, que sabiam da razão do problema, não tenham falado nada por quinze dias. Com a ação da dupla, eles obtinham algo pelo qual ansiavam: conforto.

Nós podemos não travar portas, mas também temos o mesmo objetivo quando descemos na estação Ana Rosa ao invés da Paraíso, quando esperamos o ônibus das 20h30, mais vazio (ou menos cheio, depende de como se vê a questão) que o das 20h. De certa forma, contornamos o problema na medida do possível. O que os dois fizeram também foi um contorno, mas um prejudicial a outras pessoas.

Não defendo o que foi feito por eles. Defendo o objetivo que eles tinham. Ter transporte público mais confortável é um direito nosso. Se o trem da CPTM fosse mais rápido, se houvesse mais composições, eles não fariam isso. Não estariam atuando como sardinha dentro dos vagões e pensando, ao mesmo tempo, em uma solução, a qual foi bloquear as portas com uma ferramenta. Do contrário, poderiam viajar tranquilamente, ouvindo música, conversando, lendo um livro. Arrumando o transporte, a única preocupação será chegar ao destino. Nada sobre como melhorar, com as próprias mãos, o que acontece no trajeto até lá.

2 Comentários

Arquivado em Cidades

2 Respostas para “Porta fechada

  1. Quando vi essa notícia no jornal, a primeira coisa que eu pensei foi “malandrinhos!”. Mas, sabe, você tocou num ponto interessante: eles encontraram uma forma de “melhorar a qualidade de vida” dentro daquele vagão x – pra quem já pegou vagão lotado (Sé às 18h30, por exemplo) sabe que não é fácil virar sardinha.

  2. Pingback: Agora, porta aberta «

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