Muitas palavras, poucas ações

Por Raphael Scire

A novela Viver a vida estreou, em setembro do ano passado, com grande estardalhaço por conta da primeira Helena jovem escrita por Manoel Carlos – não a primeira Helena negra, como foi largamente anunciado pela mídia. O autor é reconhecido como um cronista da vida cotidiana carioca, em especial o bairro do Leblon. Suas protagonistas, as Helenas, são sempre marcantes, divididas entre o amor de dois homens e com um instinto maternal bastante aflorado. Maneco resolveu inovar e criou uma Helena jovem, modelo bem sucedida e sem muitos problemas. A atriz escalada para o papel foi Tais Araújo.

Mal começou e a novela já apresentava problemas. O maior deles era o atraso na entrega dos capítulos, o que prejudicava as gravações. A protagonista não conquistou o público. Faltou à Helena da vez carisma necessário para cativar os telespectadores e envolvê-los com sua história. Sendo uma obra aberta, suscetível a mudanças, é muito comum nas novelas que personagens ganhem mais destaque ao longo do desenrolar da trama. Foi o que aconteceu com Luciana, a garota mimada que sofre um acidente e, a partir de então, fica tetraplégica. Alinne Moraes, apesar de ainda não estar completamente madura como atriz, mostrou um significativo avanço em sua carreira e sua personagem tomou o lugar de Helena.

Nada estranho em uma coadjuvante ter momentos de protagonistas. O fato inédito é a protagonista ser rebaixada à categoria de coadjuvante, como aconteceu em Viver a vida. Outra falta sentida na trama de Manoel Carlos é a de uma vilã convincente. Novela é baseada em folhetim. O público não quer ver a realidade refletida. Maneco sabe disso, mas desta vez errou a mão. Dora, papel de Giovanna Antonelli, era a grande promessa de vilania, junto com sua filha Rafaela – o fato de ter uma criança malvada causou frisson antes mesmo da estreia da novela. Mas as duas não passaram nem perto das grandes víboras da televisão.

Teresa (Lilia Cabral) começou a novela como uma mulher amargurada e tinha tudo para ser a grande pedra no sapato de Helena. Não foi. Ela sofreu transformações, ganhou ares maternais e caiu na graça do público. Lilia Cabral foi a grande responsável pelos bons momentos da trama. Bárbara Paz, em seu primeiro papel na Rede Globo, foi mais uma que roubou a cena. A modelo que sofre de drunkorexia, misto de alcoolismo e anorexia – teve grandes cenas dramáticas, mostrando a força de um bom diálogo, que Manoel Carlos, verdade seja dita, faz como ninguém. Aliás, o texto de Maneco é muito bom. Seus diálogos são bem pontuados. Mas não há uma grande história por trás deles.

Um dos erros de Viver a vida talvez tenha sido esse: sobraram palavras, faltou ação, história. Por essas e outras, Viver a vida ficou aquém do esperado. Reflexo disso é a baixa audiência (para os padrões da Rede Globo). Seu sucessor, Silvio de Abreu, assume o horário com a árdua tarefa de recuperar os índices do Ibope. História e elenco não lhe faltam. O difícil é (re)acostumar o público a voltar a assistir às tramas globais, ainda mais agora com a ferrenha concorrência de outras emissoras, como o SBT e, principalmente, a Record.

1 comentário

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Uma resposta para “Muitas palavras, poucas ações

  1. Eu confesso que eu gosto dessa fórmula de ‘espelho da realidade’. O que me desanimou com relação a novela foi mais o longo período de nada, de falta de acontecimentos [percebo isso em várias outras novelas, então não foi um diferencial para que não tenha dado certo, no meu ponto de vista]. Agora estou ansiosa pela próxima novela!😉

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