Cara limpa no palco

Com um microfone e, principalmente, uma boa piada, os shows de stand-up comedy levam ao teatro uma plateia desacostumada a frequentá-lo. Mas, apesar de usar o mesmo espaço das peças tradicionais, ele pode ser considerado um gênero teatral?

 Por José Roberto Gomes Jr., Nathan Lopes, Priscila Pires e Raphael Scire

Em uma de suas apresentações, o humorista Marco Luque faz uma pergunta: “Quem está vendo o show pela primeira vez?”. Mais da metade da plateia levanta a mão. Ele, então, emenda outro questionamento: “Quem está vindo ao teatro pela primeira vez?”. O número de acenos do público tem apenas uma pequena queda. A maioria deles é de gente jovem, na faixa dos 20 aos 30 anos. O humor tem, cada vez mais, levado pessoas que nunca pensaram em sentar-se numa poltrona para ver um espetáculo teatral. O responsável por isso chama-se stand-up comedy. Ou, na tradução para o português, “comédia em pé”.

Também chamado de “humor de cara limpa”, esse estilo cômico diferencia-se das tradicionais peças teatrais, já que estas necessitam de cenário, sonoplastia e maquinário, por exemplo, e o stand-up comedy, apenas de um microfone e uma iluminação, o que reduz, consideravelmente, o gasto frente a uma apresentação convencional. A semelhança entre ambos fica apenas no espaço que ocupam, o palco. E é justamente dessa observação que surge uma pergunta: o stand-up é um gênero teatral?

Para a humorista Fabiana Karla, conhecida do grande público por seus papéis cômicos na televisão (Zorra Total, da TV Globo), esse tipo de comédia é muito mais um estilo de entretenimento do que teatral. “Teatro envolve outras características, como figurino, ambientação e personagens. O stand-up tem um ‘ator de cara limpa’, contando piadas aos espectadores. A proposta é realmente diferente”, analisa Karla, que recentemente apresentou a peça Gorda em São Paulo.

Aliás, a capital paulista é referência nacional no quesito stand-up comedy. Trata-se da cidade com inúmeras apresentações de humoristas todos os dias da semana. Os mais famosos desses espaços estão localizados, principalmente, em regiões nobres, como os arredores da Avenida Paulista (Clube da Comédia e Comédia ao Vivo), Moema (Improriso) e Vila Madalena (Santa Comédia). Além disso, bares também são espaços recorrentes utilizados pelos humoristas nas apresentações, como o Pueblo Bar, na Vila Olímpia, em São Paulo. “A gente começa fazendo isso aqui em bares, com o pessoal bêbado, o dono do bar empurrando pro palco…”, revela o “humorista de cara limpa” Diogo Portugal, participante esporádico do Clube da Comédia, apresentado no Teatro Procópio Ferreira.

Preparando a piada

Boa parte dos atores de stand-up comedy possui curso de teatro nos currículos e, antes de iniciarem a apresentação, selecionam alguns temas a serem colocados para o público, os quais são observados no cotidiano. “São coisas normais contadas de uma forma engraçada”, relata a estudante de teatro de improviso e humorista Nathália Soriano, que continua: “Tem que sair do senso comum, daquela piadinha que provavelmente todo mundo já pensou”.

Os assuntos preferidos são as diferenças entre homens e mulheres e algum caso específico que esteja na mídia. Recentemente, em apresentação no Clube da Comédia no começo do ano, Danilo Gentili (também repórter do CQC, da TV Bandeirantes) perguntou à plateia o que ela sugeria como tema. Uma voz vinda da direção das poltronas, disse: “Fala sobre a Hebe!”, referindo-se à apresentadora de televisão que ganhou as páginas dos jornais ao receber o diagnóstico de câncer. Segundo os comediantes, estar bem informado é o segredo para manter as piadas sempre atuais e originais.

Mulheres a serviço do humor

O que tem chamado a atenção nesse estilo nos últimos anos é a presença feminina. Há algum tempo seria impossível imaginar um espetáculo como o que está em cartaz atualmente. Putz Grill reúne as quatro amigas-comediantes Andréa Barreto, Carol Zocolli, Micheli Machado e Wanessa Morgado, quem comenta: “O número de mulheres, se comparado ao de homens, é ainda muito pequeno, mas fico feliz em ver cada vez mais de nós se arriscando, porque é uma profissão que não depende do sexo”.

Para Nathália Soriano, ainda há um certo preconceito em relação ao stand-up feminino. “O Brasil é machista. É diferente quando o Gentili fala um palavrão de quando a Carol fala. Tem gente que não se sente confortável e diz: ‘Nossa! Uma mulher falando assim’. Elas tem que provar que são boas duas vezes mais”.

Em expansão

Sobre o futuro, Morgado acredita que o stand-up comedy, apesar de muito recente, em pouco tempo tende a “dar uma acalmada”. “Mas, com toda certeza, ele veio para ficar”. Isso alegra o público, que ri de fatos corriqueiros do seu dia a dia, e os próprios humoristas, os quais têm faturado muito em suas apresentações. O ingresso do Clube da Comédia, por exemplo, custa quarenta reais. Esse, aliás, é motivo de lamento para a comediante Fabiana Karla, que não perde a oportunidade de fazer graça. “Sou péssima em contar piada e perco muito dinheiro com isso. Se soubesse fazer stand-up, eu estaria feita”.

Por ora, humoristas comemoram o aumento no número de jovens que ingressam na área e auxiliam na expansão das apresentações. O que atraiu a atenção de Nathália Soriano, por exemplo, foi justamente a “cara limpa”. “São eles mesmos, sem figurino, cenário, essas coisas”, comenta. Porém, ela discorda de Fabiana sobre a questão do gênero. Nathália pensa que a comédia em pé não deixa de ser uma forma de teatro. “Não é qualquer um que chega lá no palco e começa a contar piadinhas. Os humoristas se preparam e muitos deles ou já eram atores mesmo ou estudaram teatro depois”.

Apesar do intuito de cada um ser diferente, foi a comédia em pé que apresentou o ambiente de teatro para muitos. Fabiana tem uma explicação para isso. “Esses espetáculos, muitas vezes, entretém mais do que peças que estão em cartaz”.

Foi o que aconteceu com a estudante de relações públicas Graziela Ferrari, após assistir à apresentação de stand-up comedy ao vivo pela primeira vez: “Já havia assistido a alguns vídeos no YouTube, do Terça Insana, e achei muito engraçado. Resolvi conferir no teatro.” Com Laura Hauser, estudante de jornalismo, não é diferente. “Acho que stand-up comedy é mais que simplesmente humor. É uma forma excelente de crítica. Por ser algo muito divertido, consegue passar informação de uma maneira leve e atingir um público muito grande”. Ela lembra ainda de um grande nome desse gênero no exterior: George Carlin, considerado um dos reis da comédia stand-up. “Seus números eram sempre muito críticos. E o legal é que ele conseguia abranger temas muito diferentes: desde religião até meio ambiente”, comenta.

Se o stand-up é ou não teatro nem quem faz ou o estuda consegue responder. O melhor em meio a essa “confusão” para nós, do público, é acomodar-se na poltrona e gargalhar.

Os palcos de stand-up comedy 

Clube da Comédia

Local: Teatro Procópio Ferreira (Av. Augusta, 2823 – Jardins – S.Paulo/SP)

Quando: Quartas, às 21h

Humoristas: Danilo Gentili, Marcelo Mansfield, Marcela Leal, Oscar Filho e Rafinha Bastos

Santa Comédia

Local: Bar Bleeker St., Rua Inácio Pereira da Rocha, 367 – Pinheiros – São Paulo

Quando: Domingos, às 21 horas

Humoristas: Carol Zoccoli, Fábio Lins, Victor Hugo, Marco Zenni, Felipe Andreoli e Fernando Muylaert

Improriso

Local: Café Paon, Av. Pavão, 950 – Moema – São Paulo

Quando: Quintas, às 22h

Humoristas: Bruno Motta, Nany People, Márcio Ribeiro, Danilo Gentili, Maurício Meirelles, Murilo Gun, Marcos Castro, Ben Ludmer, Renato Tortorelli, Carol Zoccoli, Fernando Caruso, Diogo Portugal e outros

Seleção de humor

Local: Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis, Avenida Higienópolis, 646 – Higienópolis – São Paulo

Quando: Sextas e sábados, 00h.

Humoristas: Bruno Motta, Márcio Ribeiro, Marcela Leal, Maurício Meirelles e Ben Ludmer

Comédia ao vivo

Local: Teatro Renaissance, Al. Santos, 2253 – Jardins – São Paulo

Quando: Sextas, às 23h59

Humoristas: Marcelo Adnet, Daniela Calabresa, Luís França e Fábio Rabin

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1 comentário

Arquivado em Teatro

Uma resposta para “Cara limpa no palco

  1. Roxane

    Acho que é teatro, sim. Quer dizer, tem muito de improvisação, mas, na essência, os caras estão atuando. E eu, particularmente, adoro esse tipo de comédia.

    O blog está ótimo, pessoas! Vou até dar RT nas novidades!

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